Atenção às instruções a seguir: Ao longo do livro, haverá frases e palavras acompanhadas pela menção “Nota do editor: ...”, através dela, será possível identificar as traduções e explicações feitas pelo editor, ou explicitar os neologismos presentes na obra. Morangos Mofados Caio Fernandes Abreu ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. Rio de janeiro: Editora Agir, 2005. O DIA QUE JÚPITER ENCONTROU SATURNO (Nova história colorida) [Início da quinta citação] Para Valdir Zwetsc, e Maria Rosa Fonseca Gente, espelho de estrelas, reflexo do esplendor. Caetano Veloso: “Gente” [fim da quinta citação] Foi a primeira pessoa que viu quando entrou. Tão bonito que ela baixou os olhos, sem querer querendo que ele também a tivesse visto. Deram-lhe um copo de plástico com vodca, gelo e uma casquinha de limão. Ela triturou a casquinha entre os dentes, mexendo o gelo com a ponta do indicador, sem beber. Com a movimentação dos outros, levantando o tempo todo para dançar rocks barulhentos ou afundar nos quartos onde rolavam carreiras e baseados, devagarinho conquistou a cadeira de junco junto à janela. A noite clara lá fora estendida sobre a Henrique Schaumann, a avenida poncho e conga, riu sozinha. Ria sozinha quase o tempo todo, uma moça magra querendo controlar a própria loucura, discretamente infeliz. Molhou os lábios na vodca tomando coragem de olhar para ele, um moço queimado de sol e calças brancas com a barra descosturada. Baixou outra vez os olhos, embora morena também, e suspirou soltando os ombros, coluna amoldando-se tensa ao junco da cadeira. Só porque era sábado e não ficaria, desta vez não, parada entre o som, a televisão e o livro, atenta ao telefone silencioso. Sorriu olhando em volta, muito bem, parabéns, aqui estamos. Não que estivesse triste, só não sentia mais nada. Levemente, para não chamar a atenção de ninguém, girou o busto sobre a cintura, apoiando o cotovelo direito no peitoril da janela. Debruçou o rosto na palma da mão, os cabelos lisos caíram sobre o rosto. Para afastá-los, ela levantou a cabeça, e então viu o céu. Um céu tão claro que não era o céu normal de Sampa, com uma lua quase cheia e Júpiter e Saturno muito próximos. Vista assim parecia não uma moça vivendo, mas pintada em aquarela, estatizada feito estivesse muito calma, e até estava, só não sentia mais nada, fazia tempo. Quem sabe porque não evidenciava nenhum risco parada assim, meio remota, o moço das calças brancas veio se aproximando sem que ela percebesse. Parado ao lado dela, vistos de dentro, os dois pintados em aquarela - mas vistos de fora, das janelas dos carros procurando bares na avenida, sombras chinesas recortadas contra a luz vermelha. E de repente o rock barulhento parou e a voz de John Lennon cantou every day, every way is getting better and better[Nota do editor: todos os dias, todos os sentidos estão ficando cada vez melhores.] Na cabeça dela soaram cinco tiros. Os olhos subitamente endurecidos da moça voltaram-se para dentro, esbarrando nos olhos subitamente endurecidos do moço. As memórias que cada um guardava, e eram tantas, transpareceram tão nitidamente nos olhos que ela imediatamente entendeu quando ele a tocou no ombro. - Você gosta de estrelas? - Gosto. Você também? - Também. Você está olhando a lua? - Quase cheia. Em Virgem. - Amanhã faz conjunção com Júpiter. - Com Saturno também. - Isso é bom? - Eu não sei. Deve ser. - É sim. Bom encontrar você. - Também acho. (Silêncio) - Você gosta de Júpiter? - Gosto. Na verdade “desejaria viver em Júpiter onde as almas são puras e a transa é outra”. - Que é isso? - Um poema de um menino que vai morrer. - Como é que você sabe? - Em fevereiro, ele vai se matar em fevereiro. - Hein? (Silêncio) - Você tem um cigarro? - Estou tentando parar de fumar. - Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora. - Você tem uma coisa nas mãos agora. - Eu? - Eu. (Silêncio) - Como é que você sabe? - O quê? - Que o menino vai se matar. - Sei muitas coisas. Algumas nem aconteceram ainda. - Eu não sei nada. - Te ensino a saber, não a sentir. Não sinto nada, já faz tempo. - Eu só sinto, mas não