A morte de morrer VIEIRA, Antonio. A morte de morrer: os sermões de quarta feira de cinzas. São Paulo: Nova Alexandria, 1994. Página 1 SERMÃO DE QUARTA-FEIRA DE CINZA EM ROMA, NA IGREJA DE SANTO ANTÔNIO DOS PORTUGUESES. ANO DE 1673, AOS 15 DE FEVEREIRO, DIA DA TRASLADAÇÃO DO MESMO SANTO. Pulvises, et in pulverem reverteris (Nota 1: Gênesis, capítulo 3, versículo 19. Fim da Nota) Parte 1 Duas coisas prega hoje a Igreja: pó e pó. Um é a triaga e corretivo do outro, como os pós venenosos com que se quis envenenar o imperador Valente. Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais, ambas grandes, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Assim comecei eu o ano passado, quando todos estávamos mais longe da morte; mas hoje, que também estamos todos mais perto dela, importa mais tratar do remédio, que encarecer o perigo. Adiantando pois o mesmo pensamento, e sobre as mesmas palavras, digo, senhores, que duas coisas prega hoje a Igreja a todos os vivos: uma grande, outra maior; uma triste, outra alegre; uma temerosa, outra segura; uma certa e necessária, outra contingente e livre. E que duas coisas são estas? Pó e pó. O pó que somos: Pulvis es, e o pó que havemos de ser: In pulverem reverteris. O pó que havemos de ser é triste, é temeroso, é certo e necessário, porque ninguém pode escapar da morte; o pó que somos é alegre, é seguro, é voluntário e livre, porque se nós o quisermos entender e aplicar como convém, o pó que somos será o remédio, será a triaga, será o corretivo do pó que havemos de ser. Notável foi o caso sucedido em tempo do imperador Valente, do qual disse então, com elegante juízo, o poeta Página 70 Ausônio aquela tão celebrada sentença: Et cum fata volunt, bina venena juvan (Nota 1: Ausonius ["E quando querem os fados, dois venenos ajudam"] Fim da nota). Quis uma inimiga doméstica tirar a vida com veneno ao senhor da casa, e depois de ter medicado a bebida com certos pós venenosos, duvidando ainda se teriam bastante eficácia para segurar melhor o efeito, mandou buscar outros. Vieram os segundos pós, lança-os na mesma taça a traidora, bebe o inocente marido, mas quando ela esperava que caísse subitamente morto, ele ficou tão vivo e sem lesão como dantes. Admirável acontecimento! Se os primeiros pós bastavam para matar, e os segundos também, ambos juntos, por que não mataram? Este homem não era Mitrídates, que se alimentasse com veneno. Se bebia só os primeiros pós morria; se bebia só os segundos, também morria. Pois por que não morreu bebendo uns e mais os outros? Porque os segundos pós foram corretivos dos primeiros. A guerra que haviam de fazer ao coração, fizeram-na entre si, e em vez de matar, mataram-se. Tais são os dois pós com que hoje nos ameaça a sentença universal de Adão: Pulvis es, um pó; In pulverem reverteris, outro pó, ambos mortais, ambos venenosos, mas se nós quisermos, não está na mão dos fados, senão na nossa, que um seja a triaga e o corretivo do outro. Isto é o que determino pregar hoje. A Igreja põe-vos sobre a cabeça uma cinza feita de palmas; eu hei-vos de meter na mão uma palma feita de cinzas. Havemos de vencer um pó com outro pó; havemos de curar um veneno com outro veneno; havemos de matar uma morte com outra morte: a morte do pó que havemos de ser; com a morte do pó que somos: Pulvis es, et in pulverem reverteris. Para que eu saiba preparar estes pós de modo que venham a ter uma tão grande virtude, e para que vós e eu saibamos aplicar como convém, não por cerimônia, que não é o dia disso, senão muito de coração, peçamos a assistência da divina graça: Ave Maria. Parte 2 Pulvis es, et in pulverem reverteris. Homem cristão, com quem fala a Igreja, és pó e hás-de ser pó. Que remédio? Fazer Página 71 que um pó seja corretivo do outro. Sê desde logo o pó que és, e não temerás depois ser o pó que hás de ser. Sabeis, senhores, por que tememos o pó que havemos de ser? É porque não quereinos ser o pó que somos. Sou pó, e hei de ser pó; pois antes de ser o pó que hei de ser, quero ser o pó que sou. Já que hei de ser pó por força, quero ser pó por vontade. Não é melhor que faça desde já a razão, o que depois há de fazer a natureza? Se a natureza me há de resolver em pó, eu quero-me resolver a ser pó, e faça a razão por remédio, o que há de fazer a natureza sem remédio. Não sei se entendestes toda a metáfora. Quer dizer mais claramente que o remédio único contra a morte, é acabar a vida antes de morrer. Este é o meu pensamento, e envergonho-me, sendo pensamento tão cristão, que o dissesse primeiro um gentio. Considera quam pulchra res sit consummare vitam ante mortem: deinde expectare securum reliquam temporís sui partem? (Nota 1: Sêneca. Ep. 32 ["Considera que bela coisa é consumar a vida antes da morte: depois de esperar seguro a parte que resta do seu tempo?"] Fim da nota). Lucílio meu, diz Sêneca, escrevendo de Roma à Sicília. O pensamento saiu de Roma, e fora melhor que não saísse. - Lucílio meu, considera com atenção o que agora te direi, e toma um conselho que te dou como mestre e como amigo. Se queres morrer seguro, e viver o que te resta sem temor, acaba á vida antes da morte. - Ó grande e profundo conselho, merecedor verdadeiramente de melhor autor; e digno de ser abraçado de todos os que tiverem fé e entendimento! Consumare vitam ante mortem: Acabar á vida antes de morrer; e ser pó por eleição, antes de ser pó por necessidade. Isto disse e ensinou um homem gentio, porque para conhecer esta verdade não é necessário ser cristão; basta ser homem: Memento homo. Suba agora a fé sobre a razão, venha a autoridade divina sobre a humana, e ouçamos o que diz o céu à terra. Audivi vocem de caelo dicentem mihi: Scribe: Beati mortui qui in domino moriuntur (Nota 2: Apocalipse, capítulo 14, versículo 13 ["E ouvi uma voz do Céu, que me dizia: Escreve: Bem aventurados os mortos, que morrem no Senhor"] Fim da nota): Ouvi, diz São João, uma voz do céu que me dizia e me mandava escrever esta sentença: Bem-aventurados os Página 72 mortos que morrem em o Senhor. - Celestial oráculo, mas dificultoso! Quis mortuus mori potest? (Nota 1: Santo Ambrósio ["Qual morto pode morrer?"] Fim da nota) - argüi a pergunta Santo Ambrósio. - Que morto há que possa morrer? Nullus procul dubio (Nota 2: ["Nenhum, sem dúvida"] Fim da nota) - Nenhum. - Tudo acaba a morte, e tudo se acaba com a morte, até a mesma morte. Quem morreu, já não pode morrer. Só os mortos têm este privilégio contra a jurisdição e império universal da morte. São sujeitos à morte os príncipes, os reis, os monarcas; só os mortos, depois que uma vez lhe pagaram tributo, ficarão isentos de sua jurisdição. Por isso Tertuliano chamou judiciosamente a sepultura mortis asylum (Nota 3: Tertul ["Asilo da morte"] Fim da nota): asilo, e sagrado, da morte. Contra a alçada da morte, nem o Vaticano é sagrado, mas a sepultura sim, porque os mortos já não podem morrer. Como diz logo a voz do céu a São João: Bem-aventurados os mortos que morrem em o Senhor? Mortos que morrem? Que mortos são estes? São aqueles mortos que acabam a vida antes de morrer. Os que acabam a vida com a morte, são vivos que morrem, porque os tomou a morte vivos; os que acabam a vida antes de morrer; são mortos que morrem, porque os achou a morte já mortos. Illi sunt beati, et illi in Domino moriuntur, qui prius moriuntur mundo, postea carne, (Nota 4: ["Aqueles são os bem-aventurados, e morrem no senhor, que primeiro morrem para o mundo, depois para a carne"] Fim da nota) - responde o mesmo Santo Ambrósio. Sabeis quais são os mortos que morrem? São aqueles que acabaram a vida antes de morrer; aqueles que morreram ao mundo antes que a morte os tire do mundo: Qui prius moriuntur mundo, postea carne. Estes são os mortos que morrem; estes são os que morrem em o Senhor; estes são os que a voz do céu canoniza por bem-aventurados: Beati mortui. E se os que morrem mortos são bem-aventurados, os que morrem vivos, que serão? Sem dúvida mal-aventurados. Grande texto de Davi: Veniat mors super illos, et descendant in infernum viventes (Nota 5: Salmo 54, versículo 16 ["Venha a morte sobre eles, e desçam vivos aos infernos"] Fim da nota): Venha a morte sobre eles, e desçam vivos ao inferno. - A primeira parte desta sentença, faz estranha e dificultosa a segunda. Que possam homens descer vivos ao Página 73 inferno, exemplo temos em Datã e Abiron: abriu-se a terra, e engoliu-os o inferno vivos (Nota 1: Números capítulo 16, versículo 32 ["(...) e, abrindo a sua boca, os tragou com as suas tendas e com tudo o que lhes pertencia"] Fim da nota). Mas o caso do nosso texto ainda encerra maior maravilha. Diz que virá a morte sobre eles: Veniat mors super illos, e que assim descerão vivos ao inferno: Et descendant in infernum viventes. Se a morte veio sobre eles, já os matou, e se já são mortos, como diz o profeta que desceram ao inferno vivos? Porque esse é o estado em que os achará a morte. Não fala o profeta do estado em que hão de chegar ao inferno, senão do estado em que os achará e tomará a morte, quando lá der com eles. A morte quando vem, mata a cada um no estado em que o acha. Aos que acabaram a vida antes de morrer, mata-os já mortos; aos que não quiseram acabar a vida antes da morte, mata-os vivos. Estes tais, vem a morte sobre eles; os outros, vão eles sobre a morte. E vai tanta diferença de vir a morte sobre vós, ou irdes vós sobre ela, vai tanta diferença de morrer assim vivo, ou já morto, que os que morrem mortos, são os que têm seguro o céu: Beati mortui, qui in Domino moriuntur; e os que morrem vivos, são os que vão ao inferno: Veniat mors super illos, et descendant ia infernum viventes. Senhores meus, o dia é de desenganos. Morrer em o Senhor, ou não morrer em o Senhor, haver de ser bem-aventurado, ou não haver de ser bem-aventurado, é o ponto único a que se reduz toda esta vida e todo este mundo, todas as obras da natureza, e todas as da graça, tudo o que somos, e tudo o que havemos de ser, porque é salvar, ou não salvar. Este é o negócio de todos os negócios, este é o interesse de todos os interesses, esta é a importância de todas as importâncias, e esta é e deve ser na cúria, e fora dela, a pretensão de todas as pretensões, porque este é o meio de todos os meios, e o fim de todos os fins: morrer em graça, e segurar a bem-aventurança. E se me perguntardes: essa bem-aventurança, e esse seguro, e essa graça, por que a não promete a voz do céu aos vivos que morrem, senão aos mortos que morrem: Mortui qiu moriuntur? A razão verdadeira e natural, e provada com a experiência de todos os que viveram e morreram, é porque Página 74 aqueles que morrem quando morrem, hão de contrastar com todos os perigos e com todas as dificuldades da morte, que é coisa muito arriscada naquela hora; porém os que morrem antes de morrer, já levam vencidos e superados todos esses perigos e todas essas dificuldades, porque na primeira morte desarmaram e venceram a segunda. Três coisas (dividamos o discurso para que declaremos e apartemos bem este ponto) três coisas fazem duvidosa, perigosa, e terrível a morte: ser uma, ser incerta, e ser momentânea. Estas são as três cabeças horrendas deste Cérbero, estas são as três gargantas por onde o inferno engole o mundo. E de todas estas dificuldades e perigos se livra seguramente só quem? Quem não guarda a morte para a morte, quem acaba a vida antes de morrer; quem se resolve a ser pó antes de ser pó: Pulvis es. Terceira Parte Primeiramente é terrível e terribilíssima condição da morte, ser uma: Statutum est hominibus semel mori (Nota 1: Epístola Aos Hebreus capítulo 9, versículo 27 ["(...) está decretado que os homens morram uma só vez"] Fim da nota). Hei de morrer, e uma só vez. A lei geral de Adão diz: Morte morieris (Nota 2: Gênesis, capítulo 2, versículo 17 ["(...) morrerás"] Fim da nota). Morrerás. A glosa de São Paulo acrescenta: Semel: Uma vez. E sendo a lei tão temerosa, muito mais terrível é a glosa que a mesma lei. Os males desta vida, quanto mais se multiplicam, tanto são maiores: Multiplicabo aerumnas tuas (Nota 3: Gênesis, capítulo 3, versículo 16 ["Multiplicarei os teus trabalhos"] Fim da nota), disse Deus a Eva. O maior mal da morte é não se poder multiplicar. Se a unidade da morte se multiplicara, e se pudera morrer mais de uma vez, apelara-se de uma para a outra. Quando Davi saiu a desafio com o gigante (Nota 4), meteu cinco pedras no surrão, porque se errasse a primeira pedrada, pudesse apelar para as outras pedras (Nota 4: Reis, capítulo 17, versículo 40 [" e tomou o seu cajado, que trazia sempre na mão, e escolheu na torrente cinco pedras bem lisas, e meteu-as no surrão de pastor (...)"] Fim da nota). Todos havemos de sair a desafio com este grão-gigante, Página 75 com este Golias da morte, mas o vencer ou não vencer, está em um só tiro. Quem disse: Non licet in bello bis errare (Nota 1: ["Na guerra não é lícito errar duas vezes"], errou. O que se erra em uma batalha, pode-se emendar na outra, e o que se perdeu em uma rota, pode-se recuperar em uma vitória: só a morte é aquela em que não é lícito errar duas vezes. Ergo erravimus (Nota 2: Livro da Sabedoria capítulo 5, versículo 6 ["Logo nós nos extraviávamos (...)"] Fim da nota): Enfim erramos, - diziam depois de mortos aqueles que tinham dito pouco antes: Coronemus nos rosis, antequam marcescant (Nota 3: Sabedoria capítulo 2, versículo 8 ["Coroemo-nos de rosas, antes que murchem"] Fim da nota): Coroemonos de rosas, antes que se murchem. - Pois se errastes, por que não emendais o erro? Porque já não é tempo; somos mortos. Muito mais temerosa é nesta parte a morte do corpo que a morte da alma. Para a morte da vida espiritual há contrição, há penitência; para a morte da vida corporal não instituiu Deus sacramento, nem há remédio. Quem a errou uma vez, errou-a para sempre. A transmigração deste mundo para o outro não é como a transmigração de Pitágoras. Se a alma, depois de viver em um corpo, pudera animar outro, depois de o homem morrer a primeira vez em um ladrão, pudera morrer a segunda em um anacoreta. Mas quem uma vez morreu Judas, não lhe resta outra morte para morrer Paulo. Uma só morte, ou boa para sempre, ou má para sempre: Semel. Não há dúvida que é terrível condição esta da morte. Mas para quem terrível? Para quem morre quando morre. Porém quem morre antes de morrer; zomba desta condição e ri-se desta terribilidade: Ridebit in die novíssimo (Nota 4: Livro dos Provérbios, capítulo 31, versículo 25 ["E ele rirá no último dia"] Fim da nota). Que se me dá a mim que a morte seja uma, se eu posso fazer que sejam duas? A morte não tem remédio depois, mas tem remédio antes. Constituisti terminos ejus, qui praeteriri non poterunt (Nota 5: Jó, capítulo 14, versículo 5 ["(...) tu lhe fixaste os limites que não podem ser ultrapassados"] Fim da nota). Notai a palavra praeteriri. A morte é um termo que se não pode passar da parte dalém, mas pode-se antecipar da parte daquém. Não tem remédio depois, porque depois de uma morte não há outra morte; mas tem remédio antes, porque antes de uma morte pode haver outra. Por lei e por estatuto hei de morrer uma Página 76 vez, mas na minha mão e na minha eleição está morrer duas, e este é o remédio. Morreu Lázaro, enterraram-no as irmãs, chegou Cristo ao sepulcro, e chorou. À vista destas lágrimas e da sepultura de Lázaro, admirados os circunstantes diziam: Non poterat hic, qui aperuit oculos coeci nati, facere ut hic non moreretur? (Nota 1: João, capítulo 11, versículo 37 ["Este, que abriu os olhos ao que era cego de nascença, não podia fazer que este não morresse?"] Fim da nota): Este que chora, não é o mesmo que deu a vista ao cego de seu nascimento? Sim. Pois como não impediu que morresse Lázaro? - Se chora, é seu amigo; se deu vista ao cego, é poderoso: é amigo e poderoso, e não faz por seu amigo o que pode? Se o podia sarar, por que o deixou morrer, e não fez o que podia? Não fez Cristo neste caso o que podia, porque nos quis ensinar com este caso a fazer o que podemos. Quis-nos ensinar Cristo a morrer duas vezes. Altamente Santo Agostinho: Ut unus homo semel nasci, et bis mori disceret (Nota 2: Santo Agostinho ["Como tivesse aprendido uma vez a nascer homem uno e a morrer duas vezes"] Fim da nota). Deixou Cristo morrer a Lázaro, e não o quis sarar enfermo, senão ressuscitar morto, para que à vista deste exemplar (morrendo Lázaro agora, e tornando a morrer depois) - aprendessem e soubessem os homens, que nascendo uma só vez, podem morrer duas: Semel nasci et bis mori. Oh! divino documento do divino Mestre: Nascer uma vez, e morrer duas vezes! Bem creio eu que haverá bem poucos que quiseram antes trocados estes termos, e poder nascer duas vezes, para escolher nascimento. Mas Deus que nos fez para a eternidade, e não para o tempo, para a verdade e não para a vaidade, deixou o nascer à natureza, e o morrer à eleição. No nascer; em que todos somos iguais, não pode haver erro, e por isso basta nascer uma vez; no morrer, em que o erro ou acerto importa tudo, e há de durar para sempre, era justo que o homem pudesse morrer duas vezes, para eleger a morte que mais quisesse, e para aprender; morrendo, a saber morrer. Nenhuma coisa se faz bem da primeira vez, quanto mais a maior de todas, que é morrer bem. Reparo é digno de toda a admiração, que sendo tantas as meditações da morte, e tantos os despertadores deste Página 77 desengano, sejam tão poucos os que sabem morrer. Mas a razão desta experiência e desta desgraça é porque as artes ou ciências práticas não se aprendem só especulando, senão exercitando. Como se aprende a escrever? Escrevendo. Como se aprende a esgrimir? Esgrimindo. Como se aprende a navegar? Navegando. Assim também se há de aprender a morrer, não só meditando, mas morrendo. Por isso Cristo nos ensinou em Lázaro a morrer duas vezes: uma vez para que aprendêssemos, outra para que soubéssemos morrer. Ao paralítico, e a outros a quem o Senhor deu saúde milagrosa, depois de os sarar, pregava-lhes; a Lázaro, e aos demais que ressuscitou, nenhum documento lhes deu. E por quê? Porque eram homens que já morreram uma vez, e haviam de morrer outra, e quem morre antes da morte, não há mister mais doutrina para bem morrer. O inferno e a condenação eterna (que é o paradeiro dos que morrem mal), chama-se no Apocalipse morte segunda. E faz menção ali São João de certas almas, em quem a morte segunda não tem poder: In his secunda mors non habet potestatem (Nota 1: Apocalipse, capítulo 20, versículo 6 ["(...) a segunda morte não tem poder sobre estes"] Fim da nota). E que almas venturosas são estas, em quem não tem poder a morte segunda? Todos, enquanto estamos sujeitos à morte primeira, que é a morte temporal, estamos também arriscados à morte segunda, que é a morte eterna, porque todos nos podemos condenar e ir ao inferno. Que almas são logo estas privilegiadas que totalmente se isentam do poder e jurisdição da morte segunda? São as almas daqueles que com verdadeira resolução e perseverança souberam acabar a vida antes da morte e morrer antes de morrer. Das mesmas palavras de São João se colhe, se bem as consideramos. E se não, pergunto: Por que se chama a morte eterna precisa e determinadamente morte segunda, e não mais que segunda? Porque não pode ser morte senão daqueles que uma só vez. Morte segunda refere-se à morte primeira, e supõe antes de si outra morte, mas uma só, e não mais que uma, porque se as mortes antecedentes fossem duas, já não seria morte segunda, senão morte terceira. E como os que morrem em vida morrem duas vezes, uma quando morrem, e outra antes de morrer; já não Página 78 tem neles lugar morte segunda. Para quem morre uma só vez há no inferno morte segunda; para quem morre duas vezes, não há lá morte terceira. Por isso a que se chama segunda, não tem sobre eles poder: In his secunda mors non habet potestatem. Oh! ditosos aqueles, que para evitar o perigo da morte segunda, souberem meter outra morte diante da primeira! Cristãos, e senhores meus, se quereis morrer bem (como é certo que quereis) não deixeis o morrer para a morte: morrei em vida; não deixeis o morrer para a enfermidade e para a cama: morrei na saúde, e em pé. E se quiserdes para esta grande empresa um corpo, ou hieroglífico natural, não notado por Plínio ou Marco Varro, senão por autor divino e canônico, eu vo-lo darei. Foi notar São Judas Tadeu naquela sua admirável epístola, que as árvores morrem duas vezes: Arbores autumnales, infrutuosae, bis mortuae (Nota 1: Epístola de São Judas, 12 ["(...) árvores de outono, sem fruto, duas vezes mortas"] Fim da nota). A primeira vez, morrem as árvores em pé, a segunda deitadas; a primeira, quando se secam; a segunda, quando caem. Platão disse que os homens são árvores às avessas, e eu acrescento que, se morrerem como as árvores, serão homens às direitas. Na árvore, enquanto lhe dura a vida, ou a verdura, tudo são galas, tudo pompa, tudo novidades; morre finalmente a árvore com o tempo a primeira vez, e daquele corpo tão formoso e vário que vestiam as folhas, que guarneciam as flores, que enriqueciam os frutos, não se vê mais que um cadáver seco, triste e destroncado. Neste despojo de tudo o que tinha sido, presa ainda pelas raízes, e sustentando-se na terra (mas não da terra), espera a árvore em pé a última caída, e esta é a segunda morte, com que de todo acaba. Assim deve acabar antes de acabar, quem quer acabar bem. Quantas primaveras têm passado por nós, quantos verões, e quantos outonos, e pode ser que com menos fruto que folha e flores? O que fazem os anos nas árvores, bem o puderam já ter feito em muitos de nós os mesmos anos. E é bem que a razão e o desengano o faça em todos, pois são mais fracas as nossas raízes. Esperemos mortos pela morte, e esperemo-la em pé, antes que ela nos deite na sepultura. Oh Página 79 ditosa sepultura a daqueles, na qual se possa escrever com verdade o epitáfio vulgar do grande Escoto: Semel sepultus, bis mortuus (Nota 1: Extad hoc epitaph. In Lib. Sales Musarum. Quidquid sit de veritate historiae. Vide Spondanum na. 1308 ["Uma vez sepultado, duas vezes morto"] Fim da nota). Uma vez sepultado, e duas morto. Parte Quatro Vencida assim esta primeira dificuldade de ser a morte uma, segue-se a segunda não menos perigosa nem menos terrível, que é o ser incerta. Certa a morte, porque todos certa e infalivelmente havemos de morrer; mas nessa mesma certeza, incerta, porque ninguém sabe o quando. Repartimos a vida em idades, em anos, em meses, em dias, em horas, mas todas estas partes são tão duvidosas e tão incertas, que não há idade tão florente, nem saúde tão robusta, nem vida tão bem regrada, que tenha um só momento seguro. Perplexo no meio desta incerteza, e temeroso dela, Davi fez esta petição a Deus: Notum fac mihi, Domine, finem meum, et numerum dierum meorum, ut sciam quid desit mihi (Nota 2: Salm., 38, 5 ["Faze-me conhecer, Senhor, o meu fim, e qual é o número dos meus dias, para que eu saiba (...)"]. Fim da nota): Senhor, não vos peço larga vida, mas estes dias poucos, ou muitos, que hei de viver, peço-vos que me digais quantos são, para saber o que me resta. - Assim o pediu Davi, mas é a lei da incerteza da morte tão indispensável, que nem a Davi o concedeu Deus. Era Davi aquele homem que com verdade dizia de si: Incerta et oculta sapientiae tuae manifestasti mihi (Nota 3: Salmo 50, versículo 8 ["(...) e no meu íntimo me ensinas a sabedoria"] Fim da nota]: e manifestando-lhe Deus todos seus segredos, e as outras coisas mais incertas e ocultas de sua providência, só o incerto e oculto de sua morte lhe não quis revelar. Tão reservado é só para Deus o certo desta incerteza! Mas dado caso que Deus revelara a Davi a certeza da sua morte, ainda depois de revelada e certificada por Deus, digo que ficaria incerta. Temos o caso em outro rei não menos santo, nem menos favorecido de Deus que Davi. Havendo el- Página 80 rei Josias feito grandes serviços a Deus, em observância e aumento de religião, prometeu-lhe o mesmo Deus em prêmio destas boas obras, que morreria em paz: Idcirco colligam te ad patres tuos, et colligeris ad sepulchrum tuum in pace (Nota 1: Reis, capítulo 22, versículo 20 ["(...) por isso eu te farei descansar com teus pais, e serás sepultado em paz no teu sepulcro (...)"] Fim da nota). Muito contente Josias com esta revelação, e muito animado com este seguro divino, como mancebo que era de trinta e nove anos, desejoso de glória, arma exército contra os assírios, mete-se em campanha, e tanto que os dois exércitos estiveram à vista, põe-se na testa dos esquadrões com o bastão na mão e o cartaz de Deus no peito. Eu hei de morrer na paz, seguro estou na guerra. Cerram nisto os esquadrões, trava-se a batalha, voam as setas, senão quando uma delas atravessa pelo coração do rei Josias, e cai morto. Morto el-rei? Não pode ser. Não tinha Josias uma revelação e um assinado de Deus, que havia de morrer em paz: Colligeris ad sepulchrum tuum in pace? Pois, como morre na guerra e na batalha? Aqui vereis qual é a incerteza da morte. É certo que Josias morreu na guerra; é certo que Deus lhe tinha prometido que havia de morrer em paz, é certo que a palavra de Deus não pode faltar, e no meio de todas estas certezas foi incerto o dia, incerto o lugar; e incerto o gênero de morte de que havia de morrer e morreu Josias. Mas como pode estar esta incerteza, e tantas incertezas, com a certeza infalível da palavra divina? Disse-o Davi nas mesmas palavras, com que pouco há fez a sua petição: Loquotus sum in lingua mea, notum fac mihi Domine, finem meum (Nota 2: Salm., 38, 5 ["(...) falei com a minha língua. Fazei-me reconhecer, Senhor, o meu fim (...)"] Fim