O bem amado GOMES, Dias. O bem amado: farsa sócio-politico-patológica em 9 quadros. Quinta edição. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira, 1980. (Teatro de Dias Gomes, 4). NOTA Escrita em 1962 e publicada pela primeira vez em 1963, número especial da revista Cláudia, sob o título ODORICO, O BEM AMADO E OS MISTÉRIOS DO AMOR E DA MORTE, esta foi encenada pela primeira vez em 1969, em Recife, pelo Teatro de Amadores de Pernambuco. No ano seguinte, em produção de Orlando Miranda, Direção de Giani Rato e com Procópio Ferreira no papel-título, subiu à cena no Teatro Gláucio Gil no Rio de Janeiro, excursionando posteriormente por vários Estados do Brasil. Outras montagens se seguiram a essas, realizadas por pequenos grupos, pelo país afora. Mas foi com a adaptação realizada pelo próprio autor para a televisão, em 1973, em forma de telenovela, que o texto de Dias Gomes ganhou popularidade nacional e internacional, graças ao enorme sucesso conseguido, sucesso que abriu à televisão brasileira as portas do mercado além-fronteiras. Transmitida já pelas tevês de perto de 30 países, conquistando prêmios em alguns deles, sempre com êxito marcante, a sátira político-social de Dias Gomes dá origem agora a um seriado da Rede Globo, protagonizado pelos mesmos atores que a consagraram no vídeo. Personagens Chico Moleza Dermeval Mestre Ambrósio Zelão Odorico Dorotéa Judicéa Dulcinéa Dirceu Borboleta Neco Pedreira Vigário Zeca Diabo Ernesto Hilário Cajazeira AÇÃO: Sucupira, pequena cidade do litoral baiano Página 1 PRIMEIRO QUADRO Pequena praça de uma cidadezinha de veraneia do litoral baiano. Há uma grande árvore, um coreto e uma venda. Sob a árvore sentado no chão, Chico Moleza dedilha molemente o violão. Em frente à vendola, Seu Dermeval remenda uma rede de pescar. É um mulato gordo e bonachão, de idade já avançada e meio minuto. Entram Mestre Ambrósio e Zelão carregando um defunto numa rede. O enterro é acompanhado apenas por uma beata, velhinha, enrugada como um jenipapo, e um cachorro magro vira-lata, que vem amarrado à rede. Mestre Ambrósio é um velho pescador de tez moreno-avermelhada, curtido do sol. Musculatura batida, chapelão de palha, calças de algodão branco, sua figura infunde respeito. Zelão é um negro reluzente, mais moço do que Mestre Ambrósio, pescador como ele. Traz vários amuletos no pescoço e um bom humor constante. A velha reza baixinho enquanto os dois pescadores até ao centro da cena, com passo não muito firme, Página 2 e aí depositam o féretro. Moleza pára de tocar e descobre-se, em sinal de respeito. O apelido o define bem: gestos lentos, descansados, fala mole, é ele um retrato vivo da cidade, onde a vida passa sem pressa. MESTRE AMBRÓSIO Vamos molhar um pouco a goela na venda de seu Dermeval, Zelão. ZELÃO É bom. DERMEVAL (Indicando o defunto.) Mestre Leonel? MESTRE AMBRÓSIO É. Embarcou, coitado. DERMEVAL (Dirige-se à venda.) No mar? MESTRE AMBRÓSIO Qui-o-quê. Janaína quis saber dele não. Esticou em terra mesmo. ZELÃO É de-hoje que ele não entrava num saveiro. Mal agüentava com um caniço. Quase cem anos no costado, sabe como é. MESTRE AMBRÓSIO Tava que nem saveiro velho, cheio de ostra pelo casco, fazendo água por todo o lado. Precisava mesmo ir pro estaleiro. DERMEVAL Também entornava um bocado. Página 3 MESTRE AMBRÓSIO Pra esquecer. Sabe o que é um mestre de saveiro respeitado como ele foi chegar ao fim da vida tendo quase que pedir esmolas? ZELÃO A gente sempre dava pra ele as sobras da pescaria: pititinga, chicharro, peixe miúdo. MESTRE AMBRÓSIO Morreu sem ter dinheiro nem pro caixão. DERMEVAL Tinha parente não? MESTRE AMBRÓSIO Ter, tinha. Botou um bocado de filho no mundo, o falecido, que a terra lhe seja leve. Mas tudo levantou âncora. Uns foram pra Salvador, outros pra São Paulo. Por aqui só aparecia mesmo, de vez em quando, a filha mais nova. Uma que caiu na vida. ZELÃO E que pedaço de mau caminho, seu mano! Tenho uma sede nela. MESTRE AMBRÓSIO Oxente, Zelão, respeita o defunto! ZELÃO Que o finado me desculpe, mas é mesmo. E um dia eu ainda pesco um cação de três metros, boto o dinheiro no bolso e vou me afogar naquelas águas. (Ri.) Página 4 MESTRE AMBRÓSIO Dá mais um porongo. Dermeval enche os dois copos. Eles bebem de um trago. Dermeval torna a enchê-los. Enquanto isso, Moleza levanta-se com a sua característica lentidão, aproxima-se do defunto, descobre-o. MOLEZA Coisa besta é a vida; ontem tava vivo, hoje tá morto. Que merda! ZELÃO Vem tomar um mata-bicho, Moleza. MOLEZA (Vai à venda.) Como foi? Dermeval serve uma cachaça. MESTRE AMBRÓSIO A gente voltava da pescaria, hoje de manhã, eu mais Zelão, encontramos ele estendido na praia, o cachorro lambendo a cara. MOLEZA Lambendo a cara, Mestre Ambrósio? MESTRE AMBRÓSIO E chorava. Chorava de correr lágrima. MOLEZA O cachorro? Página 5 MESTRE AMBRÓSIO Oxente, gente, já viu defunto chorar? MOLEZA Nem defunto, nem cachorro. MESTRE AMBRÓSIO Quero que esta luz me cegue, se não é verdade. ZELÃO Verdade, sim. O bicho parecia que sabia que o velho tinha espichado. Chorava como gente. MESTRE AMBRÓSIO De cortar o coração, seu Moleza. DERMEVAL (Referindo-se à velha.) E a velha? MESTRE AMBRÓSIO Sei lá. Nós viemos, ela veio atrás. DERMEVAL Será que ela e o velho...? Zelão solta uma gargalhada imoral. MESTRE AMBRÓSIO Capaz. Quando era moço, de saia mesmo, Mestre Leonel só respeitava padre e santo de andor. (Todos riem.) Vamos se chegando, Zelão, que ainda temos três léguas pela proa. DERMEVAL Três léguas. Quando chegarem lá, em vez de um defunto vão ser dois pra enterrar. Página 6 MESTRE AMBRÓSIO Isto é uma terra infeliz, que nem cemitério tem. Pra se enterrar um defunto é preciso ir a outra cidade. MOLEZA Não era melhor jogar o corpo no mar? MESTRE AMBRÓSIO Pra quê? Pra vir dar na praia de manhã? MOLEZA Jogava bem longe, em alto-mar. Fazia de conta que tinha morrido afogado. Mestre Leonel, que era pescador, ia se sentir até melhor acomodado. MESTRE AMBRÓSIO Vinha dar na praia do mesmo jeito. Não vê que se Dona Janaína não quis ele quando era moço, não ia querer agora? Janaína gosta é de gente nova, sadia. DERMEVAL Falar em Janaína, sabe do caso do sujeito que se encontro com a mãe-d'água no meio do mar? ZELÃO Sei não. Como é? DERMEVAL Quando ele viu aquele mulherão pela frente, toda nua, mulher do umbigo pra cima e peixe do umbigo pra baixo, perguntou: "Siá doná, será que vosmicê não tem uma irmã que seja ao contrário?" Todos riem exageradamente. Estão já bastante bêbedos. Moleza dedilha o violão. Página 7 MOLEZA (Canta) Dona Janaína princesa que é Filha das águas do Abaité Dona Janaína i nanã ê MESTRE AMBRÓSIO, DERMEVAL e ZELÃO (Coro) I nanã ê I nanã ê Odorico entra, suando por todos os poros. Não é propriamente um belo homem, mas não se lhe pode negar certo magnetismo pessoal. Demagogo, bem falante, teatral no mau sentido, sua palavra prende, sua figura impressiona e convence. Veste um terno branco, chapéu panamá. ODORICO Ah, lá estão! Ainda cheguei a tempo. DERMEVAL Bom-dia, Coronel Odorico. ODORICO Bom-dia, minha gente. Ao verem Odorico, Mestre Ambrósio e Zelão deixam o balcão. Moleza pára de tocar. MESTRE AMBRÓSIO Bom-dia, Coronel. Fizemos uma parada rápida, pra molhar a guela. Vamos ter que gramar três léguas. Página 8 ODORICO Três léguas. Pra se enterrar um defunto é preciso andar três léguas! DERMEVAL Um vexame! MOLEZA Vexame pro defunto: ter que viajar tanto depois de morto. ODORICO E uma humilhação para a cidade, uma humilhação para todos nós, que aqui nascemos e que aqui não podemos ser enterrados. MOLEZA Muito bem dito. Entram Dorotéa e Judicéa. A primeira é professora do grupo escolar, de maneiras pouco femininas, com qualidades evidentes de liderança. Paradoxalmente, Odorico exerce sobre ela terrível fascínio. Também sobre Juju esse fascínio se faz sentir. E isso poderia ser explicado por diferentes tipos de frustração. ODORICO Quem ama sua terra deseja nela descansar. Aqui, nesta cidade infeliz, ninguém pode realizar esse sonho, ninguém pode dormir o sono eterno no seio da terra em que nasceu. Isto está direito, minha gente? TODOS Está não! ODORICO Merecem os nossos mortos esse tratamento? Página 9 DOROTÉA e JUJU Merecem não. Entram Dulcinéa e Dirceu Borboleta, este com uma vara de caçar borboletas e uma sacola. Odorico exerce sobre ela o mesmo fascínio que sobre suas irmãs Judicéa e Dorotéa. Quanto a ele, é um tipo fisicamente frágil, de óculos, com ar desligado. ODORICO (Já passando a um tom de discurso.) Vejam este pobre homem: viveu quase oitenta anos neste lugar. Aqui nasceu, trabalhou, teve filhos, aqui terminou seus dias. Nunca se afastou daqui. Agora, em estado de defuntice compulsória, é obrigado a emigrar; pegam seu corpo e vão sepultar em terra estranha, no meio de gente estranha. Poderá ele dormir tranquilamente o sono eterno? Poderá sua alma alcançar a paz? TODOS Não. Claro que não. Populares são atraídos pelo discurso de Odorico, que se empolga, sobe ao coreto. ODORICO Meus conterrâneos: vim de branco pra ser mais claro. Esta cidade precisa ter seu cemitério. TODOS Muito bem! Apoiado! DOROTÉA Uma cidade que não respeita seus mortos não pode ser respeitada pelos vivos! Página 10 ODORICO Diz muito bem Dona Dorotéa Cajazeira, dedicada professora do nosso grupo escolar. É incrível que esta cidade, orgulho do nosso Estado pela beleza de sua paisagem, por seu clima privilegiado, por sua água radioativa, pelo seu azeite-de-dendê, que é o melhor do mundo, até hoje ainda não tenha onde enterrar seus mortos. Esse prefeito que aí está... DOROTÉA, DULCINÉA e JUJU (Vaiam.) Uuuuuu! ODORICO Esse prefeito que aí está, que fez até hoje para satisfazer o maior anseio do povo desta terra? DIRCEU Só pensa em construir hotéis para veranistas! DULCINÉA Engarrafar água para vender aos veranistas! ODORICO Tudo para os veranistas, pessoas que vêm aqui passar um mês ou dois e voltam para suas terras, onde, com toda a certeza, não falta um cemitério. Mas aqui também haverá! Aqui também haverá um cemitério! JUJU (Grita histericamente.) Queremos o nosso cemitério! DOROTÉA, JUJU, DIRCEU e DULCINÉA Queremos o cemitério! Queremos o cemitério! Página 11 ODORICO E haveremos de tê-lo. Cidadãos sucupiranos! Se eleito nas próximas eleições, meu primeiro ato como prefeito será ordenar a construção imediata do cemitério municipal. TODOS (Aplausos) Muito bem! Muito bem! Uma faixa surge no meio do povo: VOTE NUM HOMEM SÉRIO E GANHE SEU CEMITÉRIO ODORICO Bom governante, minha gente, é aquele que governa com o pé no presente e o olho no futuro. E o futuro de todos nós é o campo-santo. MOLEZA O campo-santo. DULCINÉA Que homem! DIRCEU (Repreende-a.) Du, tenha modos! ODORICO É preciso garantir o depois-de-amanhã, pra ter paz e tranqüilidade no agora. Quem é que pode viver em paz mormentemente sabendo que, depois de morto, defunto, vai ter que defuntar três léguas pra ser enterrado? MOLEZA É mesmo um pecado! Página 12 ODORICO Uma vergonha! Mas eu, Odorico Paraguaçu, vou acabar com essa vergonha. MESTRE AMBRÓSIO Seu doutor me disculpe, mas desde pequenininho que eu escuto falar nessa história de cemitério. E a coisa fica sempre na conversa. Todo mundo acha que deve fazer, mas ninguém faz. ZELÃO Lá isso é. Entra Neco Pedreira. É o dono do jornaleco da cidade, A Trombeta. Jovem combativo, algo esclarecido, afora uma certa dose de charlatanismo, é um indivíduo positivo, um pouco acima da mentalidade da cidade. E a consciência disso lhe produz certa frustração. ODORICO Mas eu vou fazer. Os que votaram em mim para vereador sabem que cumpro o que prometo. Prometi acabar com o futebol no largo da igreja e acabei. Prometi acabar com o namorismo e o sem-vergonhismo atrás do forte e acabei. Agora prometo acabar com essa humilhação para a nossa cidade, que é ter que pedir a outro município licença pra enterrar lá quem morre aqui. E vou cumprir. Neco Pedreira disfarçadamente acende um "espanta-moleque" e o atira no meio da praça. As mulheres gritam, histericamente. O povo corre. DOROTÉA É ele! Não podia ser outro! JUJU Neco Pedreira! Página 13 DULCINÉA Cafajeste! NECO Quem morreu fedeu, Odorico. JUJU Minha Nossa Senhora, que heresia! DOROTÉA Com certeza vai escrever isso na sua imunda gazeta. ODORICO Eu sei que há muita gente que não respeita os mortos, nem acredita em Deus. Não é para esses ateístas despenitentes que vamos construir o nosso cemitério. NECO Muito obrigado. Espero que você seja o primeiro a fazer uso dele. ODORICO (Para os pescadores.) Vamos seguir com o enterro. MESTRE AMBRÓSIO Vamos lá, Zelão. Pega na proa que eu vou no leme. Zelão e Ambrósio voltam a carregar o defunto. MESTRE AMBRÓSIO Tava pesado assim quando a gente veio, Zelão? ZELÃO Tava não, Mestre Ambrósio. Página 14 MESTRE AMBRÓSIO Então o finado engordou. ZELÃO Acho que sim. MOLEZA Diz que surra de chicote é bom: a alma sai e o defunto fica mais leve. ZELÃO Também já ouvi dizer. MESTRE AMBRÓSIO Vamos indo. Na estrada a gente arranja um cipó e dá um chá de vara nele. DIRCEU Você vai, Du? DULCINÉA Claro. Você não percebe que é importante, Dirceu? Minhas irmãs também vão. DIRCEU Eu vou pra casa. DULCINÉA Fazer o quê? DIRCEU Deixei as borboletas secando na janela, tenho medo dos gatos... Página 15 Dulcinéa faz uma cara de fastio e une-se ao grupo que vai acompanhar o enterro. O cortejo se movimenta. O defunto vai à frente, ziguezagueando em sua rede, por mais esforço que façam Zelão e Ambrósio para caminhar em linha reta. O cão segue, amarrado à rede. E, mais atrás, a Velha, Odorico, Dorotéa, Juju e Moleza, que tira acordes no violão. VELHA Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois entre as mulheres, bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. OS ACOMPANHANTES Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e aa hora da nossa morte, amém. (Saem.) DERMEVAL Se ele prometer fazer o cemitério aqui em frente da venda, meu voto é dele. DIRCEU Qual o seu interesse nisso? DERMEVAL Ora, seu Dirceu, gente de velório bebe muito. Pegou muita borboleta hoje? DIRCEU Só esta. (Mostra.) Veja. DERMEVAL É bonita. Página 16 DIRCEU É rara. Raríssima. É uma Morpho Deidâmea. (Sai.) DERMEVAL Homem que vive caçando borboleta, a mulher acaba virando mariposa... (Ri e volta a remendar sua rede.) NECO (Vai à venda.) Seu Dermeval, me bota aí um engasga-gato. DERMEVAL (Larga a rede, vai servir a cachaça.) Como vai a gazeta, Dr. Neco? NECO Mal, seu Dermeval, mal. Numa cidade atrasada, onde não há crimes, desastres, roubos, onde nem mesmo as mulheres corneiam os maridos, como é que pode haver imprensa? Página 17 Segundo Quadro Uma sala da prefeitura. O ambiente é modesto. Durante a mutação ouve-se um dobrado e vivas a Odorico, "viva o prefeito", etc. Estão em cena Dorotéa, Juju, Dirceu, Dulcinéa, Vigário e Odorico. Este último, à janela, discursa. ODORICO Povo sucupirano! Agoramente já investido no cargo de Prefeito, aqui estou para receber a confirmação, a ratificação, a autenticação e por que não dizer a sagração do povo que me elegeu. Aplausos vêm de fora. ODORICO Eu prometi que o meu primeiro ato como prefeito seria ordenar a construção do cemitério. Página 18 Aplausos, aos quais se incorporam as personagens em cena. ODORICO (Continuando o discurso.) Botando de lado os entretantos e partindo pros finalmentes, é uma alegria poder anunciar que prafrentemente vocês já poderão morrer descansados, tranqüilos e desconstrangidos, na certeza de que vão ser sepultados aqui mesmo, nesta terra morna e cheirosa de Sucupira. E quem votou em mim, basta dizer isso ao padre na hora da extrema-unção, que tem enterro e cova de graça, conforme o prometido. Aplausos. Vivas. Foguetes. A banda volta a tocar. Odorico acena para o povo sorridente, depois deixa a janela e é imediatamente cercado pelos presentes, que o cumprimentam. DOROTÉA Parabéns. Foi ótimo o seu discurso. JUJU Disse o que precisava dizer. ODORICO Obrigado, obrigado. DIRCEU De um homem assim é que a gente precisa; vai direto à questão. DULCINÉA Formidável. ODORICO Obrigado, obrigado. Conto com vocês. Página 19 DOROTÉA Pode contar. Comigo e com minhas irmãs. Queríamos convidar o Prefeito pra tomar um licorzinho conosco lá em casa esta noite. ODORICO Licor? De quê? JUJU De jenipapo. ODORICO Jenipapo é bom. Sou um jenipapista juramentado. DOROTÉA Podemos esperá-lo? ODORICO Podem... vamos comemorar a posse com uma jenipapação. JUJU (Tem um risinho histérico, que corta de súbito ante o olhar sereno de Dorotéa.) DOROTÉA Então, até mais logo. Você vem, Dulcinéa? DULCINÉA Dirceu...? DIRCEU Eu vou ter que ficar. Agora sou secretário do Prefeito... Me espere em casa, bem... não demoro. Dorotéia, Juju e Dulcinéa saem. Página 20 ODORICO Seu Dirceu, o senhor viu todos aqueles processos que eu pedi? DIRCEU Estão todos separados. ODORICO Então vá buscar. Vamos trabalhar. DIRCEU Um instante só. (Sai.) VIGÁRIO O senhor já vai começar a trabalhar? ODORICO Já. Não sou homem de perder tempo. E vou tratar de assunto de seu interesse: a construção do cemitério. VIGÁRIO Sabia que o senhor não ia esquecer as promessas feitas ao eleitorado. ODORICO Na próxima vez que o senhor vier aqui já quero lhe falar da inauguração. Aliás, a Igreja devia ajudar. É uma obra cristã, e que, entrementemente, vai render dividendos para a paróquia. Benzemento de corpo, encomendação de alma... O Vigário se esquiva. VIGÁRIO Sabe, coronel... o teto da igreja está ameaçando de vir abaixo. Vou ter que fazer umas quermesses para arranjar dinheiro... Entra Dirceu, com vários processos. Página 21 DIRCEU Está tudo aqui. O senhor vai examinar agora? ODORICO Vou. Quero saber logo se há alguma verba para dar início à construção do cemitério. DIRCEU (Coloca os processos sobre a mesa.) Nem um tostão. Só déficit. ODORICO (Folheia os processos.) Não é possível. DIRCEU A prefeitura tem um terreno... ODORICO O terreno só não resolve, é preciso dinheiro para o muro, as alamedas, a capela. DIRCEU (Examinando um processo.) Parece que há um restinho de verba da água. ODORICO Da água? DIRCEU É, pra consertar os canos. ODORICO Diz isso aí? DIRCEU Não, aqui só fala em obras públicas de urgência. Página 22 ODORICO O cemitério também é uma obra pública de urgência. É ou não é? (Irônico.) De muita urgência. DIRCEU Há um restinho, pouca coisa... ODORICO (Anima-se.) Não tem importância, um restinho com mais um restinho, já se faz um cemiteriozinho. DIRCEU É da luz. Para aumentar a força. ODORICO Para que aumentar a força? VIGÁRIO A luz anda muito fraca, Coronel, quase não se consegue ler. ODORICO Mas para que ler de noite? Pode-se ler de dia. E depois, uma cidade de veraneio deve ter luz bem fraca, para que se possa apreciar bem o luar... A cidade é muito procurada pelos namorados... o senhor Vigário me perdoe. DIRCEU Só que esse desvio de verba... ODORICO É para o bem do município. Tenho certeza que Deus vai aprovar tudo. Página 23 VIGÁRIO Quem sabe?... As intenções são boas... E como Deus não é um burocrata... ODORICO Então vamos escolher o terreno. DIRCEU A prefeitura só tem um, mas está ocupado. ODORICO Ocupado? Por quem? DIRCEU Pelo circo. ODORICO Ora, o circo que se mude. Chega das palhaçadas de antigamente. Prafrentemente, vamos tratar de coisas sérias. Pode levar isto daqui. Dirceu sai com os processos. ODORICO Quero ver agora o que vão dizer os que me acusavam de oportunista, de demagogista. Quando virem os pedreiros levantando os muros, construindo a capela, calçando as alamedas, vão ficar com cara de Sinhá Mariquinha-cadê-o-frade. VIGÁRIO Quando o senhor espera inaugurar esse cemitério? ODORICO Dentro de três meses, com o primeiro enterro, que será custedo pela municipalidade. (Surge-lhe uma idéia.) Podíamos até... Página 24 Oh, não, oferecer um prêmio não ficava bem. Mas custear os funerais e dar certa pompa, isso era mais do que justo. Banda de música, marcha fúnebre. E uma inscrição no mausoléu também, assinalando o pioneirismo do defunto, o primeiro a ser sepultado em terras de Sucupira. DULCINÉA (Entra e se assusta com a presença do Vigário.) Desculpe... pensei que o Prefeito estivesse sozinho... VIGÁRIO Não está, mas vai ficar. O Prefeito vai me dar licença... ODORICO Obrigado por sua presença, seu Vigário. DULCINÉA Sua bênção, seu Vigário. VIGÁRIO Deus lhe abençoe. (Sai.) Dulcinéia espera o Vigário sair, está muito nervosa. ODORICO Você voltou... DULCINÉA Onde está meu marido? ODORICO Dirceu... está lá pra dentro... DULCINÉA Preciso muito falar com você... Eu não lhe disse nada... mas estava apavorada... Página 25 ODORICO Com quê? Seu marido! DULCINÉA Pior... Pensei que estivesse grávida! Mas era rebate falso... Dirceu entra nesse momento e Odorico procura disfarçar. ODORICO Sinto muito, Dona Dulcinéa, mas seu Dirceu agora é funcionário da Prefeitura, tem que cumprir o expediente. DIRCEU Du... que houve? Não lhe disse pra me esperar em casa? DULCINÉA Está bem... é que eu pensei... Desculpe... (Sai.) DIRCEU Ela veio pedir pro senhor deixar eu sair mais cedo? ODORICO É, veio... Mas o senhor compreende, mesmo sendo seu padrinho de casamento, tenho que botar de lado esses considerandos... DIRCEU Caro... É que ela, coitadinha, se sente muito só quando não está comigo. ODORICO Já percebi isso... Mas muito em breve ela não vai sentir mais essa solitude... Quando começarem a nascer os filhos... Dirceu faz uma pausa, constrangido. Página 26 DIRCEU Filhos?... ODORICO É... filhos. Aliás, já está em tempo... DIRCEU Nós não vamos ter filhos. ODORICO Oxente, por quê? DIRCEU Vou lhe confessar uma coisa, Coronel... Porque o senhor é meu padrinho... e padrinho é como um segundo pai. ODORICO Claro... DIRCEU Eu... eu sou irmão oblato... Fiz voto de castidade. ODORICO Voto de castidade?! E ela sabe disso?... Bom, tem que saber... DIRCEU Casamos com essa condição. De manter o meu voto. Página 27 Terceiro Quadro Odorico lê um exemplar de A Trombeta, o jornaleco local. Seu rosto revela profunda indignação. ODORICO (Resmunga, enquanto lê.) Patife! Canalha! (Amarrota o jornal violentamente e atira-o ao chão. Põe-se a andar nervosamente um lado para o outro, e por fim senta-se à sua mesa, parecendo a ponto de ter um colapso.) DOROTÉA (Entra quase marcialmente.) Bom-dia, senhor prefeito. ODORICO Bom-dia. (Levanta-se de um salto.) A senhora já leu a gazeta? Página 28 DOROTÉA Ainda não. ODORICO Esse patifento desse Neco Pedreira me chama de demagogo, esbanjador dos dinheiros públicos... me xinga de tudo quanto é nome. (Apanha o jornal.) Leia a senhora mesma, leia. DOROTÉA Que retrato é esse que ele botou na primeira página? ODORICO É um retrato que tiraram de mim durante a construção do cemitério. Tem um ano, já. DOROTÉA (Lendo.) "Odorico, o pastor de urubus." ODORICO Que é que eu faço com um mau-caratista como esse, Dona Dorotéa? Que é que eu faço? Já pensei em arranjar dois jagunços e mandar dar uma surra... DOROTÉA Isso me parece contraproducente; vai fazer dele um herói e aumentar a venda do pasquim. Além do mais, o senhor teria que mandar surrar muita gente. A oposição está ganhando terreno dia a dia. E o que Neco escreveu n'A Trombeta é mais ou menos o que os nossos inimigos dizem por aí. ODORICO Eu sei. É um movimento subversivo procurando me intrigar com a opinião pública e criar problemas à minha administração. Sei, sim. É uma conspiração. Eles não queriam o cemitério. Desde o princípio foram contra. E agora que o cemitério está Página 29 pronto caem de pau em cima de mim, me chamam de demagogo, de tudo, somentemente, porque aconteceu o que não devia acontecer. Ou melhor: só porque não aconteceu o que devia acontecer. Como se eu tivesse culpa! DOROTÉA Seja como for, é uma situação horrível, que precisa ser resolvida. ODORICO Mas resolvida como? DOROTÉA O senhor sabe que pode contar comigo para tudo. Apesar... apesar de minha situação pessoal não ser também das melhores. Há seis meses que não recebo e o grupo está sem dinheiro até para comprar material escolar. ODORICO E todo o mundo acha que a culpa é do cemitério. É verdade que a receita municipal baixou um pouco: não obstantemente, estamos agora livre da humilhação de enterrar nossos mortos no cemitério dos outros. DOROTÉA Acho que o senhor só tem uma saída: inaugurar o cemitério. ODORICO Inaugurar como? Se há um ano não morre ninguém nesta terra?! DOROTÉA Inaugure sem defunto mesmo. ODORICO Era uma desmoralização. Depois da gente ter anunciado aos quatro ventos que a inauguração ia ser com o primeiro enterro, Página 30 era passar o recibo de inutilidade do cemitério; era dar razão à oposição, que diz que é dinheiro jogado fora. Não, inaugurar campo-santo sem defunto é o mesmo que batizar navio em tem firme. Não tem graça. DOROTÉA Menos graça tem ainda o que a Câmara Municipal está preparando. ODORICO Que é? DOROTÉA Soube hoje que vão pedir esse tal de impeachment. ODORICO Já me disseram. Querem votar o meu impedimento. Mas isso eles não vão conseguir. Não vão conseguir. DOROTÉA Acho que só há um meio de evitar: arranjar um defunto qualquer e inaugurar o cemitério. Não se podia comprar um? ODORICO Já pensei nisso. Mandar buscar em Salvador. Lá se vendem cadáveres para estudo na Faculdade de Medicina. DOROTÉA Pois então! É a solução! ODORICO Mas muito perigosa. A oposição ia descobrir, com toda a certeza. E nem é bom imaginar o que iam dizer de nós. Página 31 DOROTÉA Não há ninguém doente na cidade? ODORICO Em estado de dar esperanças, parece que ninguém. Em todo o caso, mandei o coveiro fazer uma verificação. DOROTÉA Quase todo ano há sempre um veranista que morre afogado. ODORICO Este ano o mar está que é uma lagoa. Nunca vi tanto azar. DOROTÉA Então que vamos fazer? ODORICO Sei lá, Dona Dorotéa, sei lá. Passo dia e noite pensando nisso e não encontro jeito. É uma situação deverasmente embaraçante. Entra Moleza. MOLEZA Dá licença? ODORICO Como é, seu Moleza? Alguma esperança? MOLEZA Nenhuma, seu prefeito, nenhuma. Andei a cidade toda, perguntei a todo mundo. Ninguém sabe de ninguém que esteja pra espichar. Página 32 ODORICO Será possível! Ninguém adoece nesta cidade! MOLEZA Perguntei pro doutor... ODORICO Esse vive de receitar água e dar remédio pra dor de barriga. MOLEZA Foi o que ele disse: que morrer aqui só se morre mesmo de velho e desarranjo. Mas custa. No ano atrasado, não sabe... ODORICO Não me interessa o ano atrasado, interessa este. Precisamos inaugurar o cemitério, o quanto antes. Não é possível esperar mais. MOLEZA Está muito difícil, seu Coronel. Há uma carência muito grande de defunto. O jeito é ter paciência e fé em Deus. ODORICO É, pra você é muito fácil ter paciência. Está há um ano ganhando como coveiro sem trabalhar. MOLEZA Mas não recebo... ODORICO Receba ou não receba, o senhor é um parasita do município. Se fosse um funcionário equipado de bom caráter e amor-próprio, já tinha procurado resolver essa situação e tornar-se um cidadão útil à comunidade. O senhor é uma vergonha e um mau Página 33 exemplo para o funcionalismo municipal. Tenho ou não tenho razão. Dona Dorotéa? DOROTÉA Inteira. O cidadão coveiro é, inclusive, um perigo para a comunidade. MOLEZA Perigo, eu? DOROTÉA Perigo pela sua inatividade, que além de ser imoral é mais um motivo para os nossos inimigos nos atacarem. MOLEZA Mas que culpa tenho eu, se não me dão serviço? DOROTÉA Aliás, se o senhor prefeito tivesse investigado os antecedentes do cidadão coveiro, antes de nomeá-lo, teria visto que ele nunca foi de fazer força. Haja visto o apelido que lhe puseram: Moleza. ODORICO Bem, eu pretendi, com essa nomeação, premiá-lo pelo seu trabalho na minha campanha. Esperava que isso fosse também um estímulo e ele se compenetrasse de que agora precisava desconfirmar o apelido. Mas de nada adiantou. É um caso perdido. MOLEZA Injustiça. Vosmicés estão fazendo uma injustiça. Há um ano que todo dia de manhãzinha eu preparo uma cova bem preparadinha, limpo a cruz bem limpinha... Página 34 ODORICO E depois? MOLEZA Depois pego o violão e fico esperando pelo dono. Não vem, eu me deito na cova e durmo. ODORICO Dorme! Dorme, enquanto que eu não durmo há meses. MOLEZA Por que vosmicê não fica o dia inteiro pensando na morte, como eu; dá uma moleza... JUJU (Entra muito excitada.) Dá licença? (Nota a presença de Moleza.) Oh, desculpe, pensei que estivesse só... DOROTÉA Que é isso, Juju, que aconteceu? JUJU Chegou um telegrama de tia Clotilde! ODORICO É particular, Dona Juju? JUJU É não. É até sobre o cemitério mesmo, mas... ODORICO Então pode falar na frente do nosso coveiro; é pessoa de confiança. Página 35 JUJU O senhor se lembra daquela conversa sobre nosso primo Ernesto, primo em segundo grau? ODORICO Que tem seu primo Ernesto, primo em segundo grau? JUJU Que tem? Ele vem aí. Chegou um telegrama de Salvador dizendo que ele embarca hoje. ODORICO Vem pra cá? DOROTÉA O primo Ernesto? ODORICO Vai ficar na casa de vocês? JUJU Eu não achava muito conveniente... O senhor sabe, somos duas moças solteiras e moramos sozinhas. Mas como não vai ser por muito tempo, se Deus quiser, estou disposta a arriscar a minha reputação pela nossa causa. A menos que o senhor faça questão de hospedar o primeiro em nome da municipalidade. ODORICO Eu não, não faço nenhuma questão. JUJU Mas com toda a certeza o prefeito vai mandar o carro da prefeitura buscar ele na ponte; por isso eu vim depressa avisar. Página 36 ODORICO Dona Juju, a senhora me desculpe, mas eu acho que não fica bem. Diga a seu primo que ele é muito bem vindo, que eu estou aqui às ordens, mas mandar o fordeco da prefeitura buscar ele eu não posso. A senhora não vê que a oposição está de olho em tudo que a gente faz? Vão dizer que é favoritismo, que eu estou gastando a gasolina comprada com o dinheiro do povo em passeios com os meus amigos. Não, a senhora me desculpe, mas o exemplo deve vir de cima. Seu primo vai ter de ir para casa no calcanho. DOROTÉA Mas ele não pode! ODORICO Não pode? A casa de vocês fica tão perto da ponte! DOROTÉA Ele está doente, desenganado pelos médicos! ODORICO Desenganado?! Dirceu entra. JUJU Nas últimas! O senhor não se lembra? Eu lhe disse... ODORICO Ah, seu primo é aquele que a senhora falou que estava muito mal, em Salvador. DOROTÉA Pneumonia galopante, coitado. Página 37 JUJU O senhor me pediu para escrever à família, sugerindo que mandassem ele para cá, que a prefeitura pagava todas as despesas; médico, remédios, tudo que ele precisasse. ODORICO Mas é claro, a prefeitura paga tudo! JUJU Eu escrevi e ele veio. Está chegando. ODORICO Estamos salvos! Estamos salvos! DIRCEU Arrumaram um defunto? JUJU Defunto, não; ele ainda está vivo. ODORICO Mas morre na certa, não? JUJU É o que dizem os médicos. ODORICO Está agonizante! JUJU É capaz de morrer na viagem. ODORICO Morrer na viagem?! Não pode! Tem de morrer aqui! Por que a senhora não me avisou antes? Página 38 JUJU Recebi o telegrama agora. ODORICO Eu teria tomado providências, mandando um médico para vir com ele. Morrer durante a viagem, não. Podem mandar o corpo de volta! MOLEZA Era o cúmulo da urucubaca. JUJU Vamos rezar para que isso não aconteça. ODORICO Não, agora não há mais tempo para rezar. O vapor está chegando. (Para Dirceu.) Me faça um favor, avise o Vigário. E diga ao maestro Filó que reúna o pessoal da banda e volte a ensaiar a Marcha fúnebre. (Para Juju.) Nós vamos receber seu primo com todas as excelências. JUJU No carro da Prefeitura? ODORICO Oxente, um hóspede importante como ele! MOLEZA E eu, seu prefeito, que faço? ODORICO Você volta pro cemitério e vai preparando a cova. Capricha que o inquilino vem aí. Página 39 Quarto Quadro Em casa das solteironas. Enquanto, no quarto, o primo Ernesto agoniza, na sala, Odorico decora a oração fúnebre. ODORICO ...que fique para sempre gravada nesta lápide... lápide... Em volta do leito do moribundo, o Vigário, Dorotéa, Juju e Dirceu Borboleta. Dirceu acende a vela que está na mão de Ernesto. JUJU Que coisa, hem?... Um homem moço, inteirinho... desperdiçado. Os vermes vão comer... DOROTÉA (Lança a Juju um olhar de repreensão.) Juju! Página 40 ODORICO (Na sala.) Que fique pra sempre gravada nesta lápide... o nome desse bandeirante da morte, desse pioneiro do além... Dorotéa sai do quarto e passa à sala. ODORICO Já?!... DOROTÉA Continua agonizante. ODORICO Três dias já?! Nunca vi tanta vocação pra agonizante. É um agonizantista praticante. DOROTÉA Acho que vou pro meu quarto dormir um pouco. ODORICO (Chega-se a ela, insinuante.) Tá todo mundo preocupado com o moribundo... a gente podia... DOROTÉA Não, Odorico! Hoje, não!... É pecado... O primo está morrendo... DIRCEU (Entrando na sala.) Apagou! ODORICO Quem?! O primo? DIRCEU Não, a vela. Não tenho mais fósforos... Página 41 ODORICO (Dando sua caixa de fósforos.) Toma... Nunca vi defunto pra gastar tanta vela... Dirceu volta ao quarto e torna a acender a vela, enquanto Dorotéa sai. Odorico volta a ensaiar o discurso. ODORICO Meus concidadãos! Este momento há de ficar para sempre gravado nos anais e menstruais da História de Sucupira! Página 42 Quinto Quadro Na prefeitura. Dulcinéa e Dorotéa esperam Odorico. DULCINÉA Você acha que devemos dizer a ele toda a verdade? DOROTÉA É nossa obrigação, Dudu. Se não denunciarmos, seremos cúmplices. Que horas são? DULCINÉA Quase dez horas. DOROTÉA O fato é que ele também já está encostando o corpo. No primeiro dia, chegou aqui às seis horas da manhã. Página 44 DULCINÉA Você é injusta, Dó, ele é um homem, não é uma máquina. Entra Dirceu. DULCINÉA (Estranhando.) Dirceu... Você por aqui? DIRCEU Trabalho aqui. Sabia não? DULCINÉA Mas você só pega às 11... DIRCEU (Um pouco ressabiado.) E você, por que saiu tão cedo? DULCINÉA Você estava dormindo, e eu tinha um encontro marcado. DIRCEU Co