Quarto de Despejo JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. Quarta edição, São Paulo, SP: Circulo do livro, 1960. Pagina 1 Prefácio por Audálio Dantas: A atualidade do mundo de Carolina Para os feitores desta edição de Quarto de despejo, é preciso que eu me apresente. Entrei na história deste livro como jornalista, verde ainda, com a emoção e a certeza de quem acreditava poder mudar o mundo. Ou, pelo menos, a favela do Canindé e outras favefas espalhadas pelo Brasil, fíepórter, fui encarregado de escreveruma matéria sobre uma favela que se expandia na beira do rio Tietê, no bairro do Canindé. Lá, no rebuliço favelado, encontrei a negra Carolina, que logo se colocou como alguém que tinha o que dizer. E tinha! Tanto que, na hora, desisti de escrever a reportagem. A história da favela que eu buscava estava escrita em uns vinte cadernos encardidos que Carolina guardava em seu barraco. Li, e logo vi: repórter nenhum, escritor nenhum poderia escrever melhor aquela história - a visão de dentro da favela. Da reportagem - reprodução de trechos do diário - publicada na Folha da Noite, em 1958, e mais tarde 11959) na revista o Cruzeiro, chegou-se ao livro, em 1960. Fui o responsável pelo que se chama edição de texto. Li todos aqueles vinte cadernos que continham o dia-a-dia de Carolina e de seus companheiros de triste viagem. A repetição da rotina favelada, por mais fiel que fosse, seria exaustiva. Por isso foram feitos cortes, selecionados os trechos mais significativos. A fome aparece no texto com uma frequência irritante. Personagem trágica, inarredável. Tão grande e tão marcante que adquire cor na narrativa tragicamente poética de Carolina, Em sua rotineira busca da sobrevivência no lixo da cidade, ela descobriu que as coisas todas do mundo - o céu, as árvores, as pessoas, os bichos - ficavam amarelas quando a fome atingia o limite do suportável. Carolina viu a cor da fome - a Amarela. No tratamento que dei ao original, muitas vezes, por excessiva presença, a Amarela saiu de cena, mas não de modo a diminuir a sua. importância na tragédia favelada. Pagina 2 Mexi, também, na pontuação, assim como em algumas palavras cuja grafia poderia levar à incompreensão da leitura. E foi só, até a última linha. O tempo operou profundas mudanças na vida de Carolina, a partir do momento em que os seus escritos - registros do dia-a-dia angustiante da miséria favelada - foram impressos em letra de fôrma, num livro que correu mundo, lido, discutido e admirado em treze idiomas. ESCRITOR NENHUM PODERIA ESCREVER MELHOR AQUELA HISTORIA: A VISÃO DE DENTRO DA FAVELA. Um livro assim, forte e original, só podia gerar muita polêmica. Para começar, ele rompeu a rotina das magras edições de dois, três mil exemplares, no Brasil. Em poucos meses, a partir de agosto de 1960, quando foi lançado, sucessivas edições atingiram, em conjunto, as alturas dos 100 mil exemplares. Os jornais, as revistas, o rádio e a televisão, primeiro aquie depois no mundo inteiro, abriram espaço para o livro e para a história de sua autora. O sucesso do livro - uma tosca, acabrunhante e até lírica narrativa do sofrimento do homem relegado à condição mais desesperada e humilhante de vida - foi também o sucesso pessoal de sua autora, transformada de um dia para outro numa patética Cinderela, saída do borralho do lixo para brilhar intensamente sob as luzes da cidade. Carolina, querendo ou não, transformou-se em artigo de consumo e, em certo sentido, num bicho estranho que se exibia "como uma excitante curiosidade", conforme registrou o escritor Luís Martins. Mas, acima da excitação dos consumidores fascinados pela novidade, pelo inusitado feito daquela negra semi-analfabeta que alcançara o estrelato e, mais do que isto, ganhara dinheiro, pairava a força do livro, sua importância como depoimento, sua autenticidade e sua paradoxal beleza. Sobre ele escreveram alguns dos melhores escritores brasileiros: Rachel de Queiroz, Sérgio Milliet, Helena Silveira, Manuel Bandeira, entre outros. O que não impediu que alguns torcessem o nariz para o livro e até lançassem dúvidas sobre a autenticidade do texto de Carolina. Aquilo, diziam, só podia ser obra de um Pagina 3 espertalhão, um golpe publicitário. O poeta Manuel Bandeira, em lúcido artigo, colocou as coisas no devido lugar: ninguém poderia inventar aquela linguagem, aquele dizer as coisas com extraordinária força criativa mas típico de quem ficou a meio caminho da instrução primária. Exatamente o caso de Carolina, que só pôde chegar até o segundo ano de uma escola primária de Sacramento, Minas Gerais. O impacto causado por Quarto de despejo foi além das discussões sobre o texto. O problema da favela, na época de dimensões ainda reduzidas em São Paulo, foi discutido por técnicos e políticos. Um grupo de estudantes fundou o Movimento Universitário de Desfavelamento, cuja sigla - MUD - revelava, no mínimo, uma intenção generosa. Ou um sonho. E Carolina era alçada à condição de cidadã, com título oficial conferido pela Câmara Municipal de São Paulo. O cenário em que foi escrito o diário já não é o mesmo. Parte dele deu lugar ao asfalto de uma nova avenida, por coincidência chamada Marginal. A Marginal do Tietê, que passa por ali onde até meados dos anos 60 se erguia o caos semiurbano e subumano da favela do Canindé, em São Paulo. O resto foi ocupado por construções sólidas, ordenadas, limpas, aprumadas no lugar dos barracos cujos ocupantes foram para outros cantos da cidade, para outros quartos de despejo, Mais de trinta anos decorridos desde o aparecimento de Quarto de despejo, a cidade tem outra cara, esparramada para muito além da avenida Marginal. E a favela do Canindé, onde viveu Carolina Maria de Jesus, na rua A, barraco numero 9, multiplicou-se em dezenas, cen tenas de outras. Assim, Quarto de despejo não é um livro de ontem, é de hoje. Sua contundente atualidade é dramaticamente demonstrada pelos arrastões que invadiram em 92 as praias da zona sul do Rio de Janeiro. Os quartos de despejo, multiplicados, estão transbordando. Início do Livro: 15 DE JULHO DE 1955 Aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas o custo dos generos alimentícios nos Pagina 4 impede a realização dos nossos desejos. Àtualmente somos escravos do custo de vida. Eu achei um par de sapatos no lixo, lavei e remendei para ela calçar. Eu não tinha um tostão para comprar pão. Então eu lavei 3 litros e troquei com o Arnaldo. Ele ficou com os litros e deu-me pão. Fui receber o dinheiro do papel. Recebi 65 cruzeiros. Comprei 20 de carne. 1 quilo de toucinho e 1 quilo de açúcar e seis cruzeiros de queijo. E o dinheiro acabou-se. Passei o dia indisposta. Percebi que estava resfriada. A noite o peito doia-me. Comecei tussir. Resolvi não sair a noite para catar papel. Procurei meu filho João José. Ele estava na ma Felis- berto de Carvalho, perto do mercadinho. O onibus atirou um garoto na calçada e a turba afluiu-se. Ele estava no núcleo. Dei-lhe uns tapas e em cinco minutos ele chegou em casa. Ablui as crianças, aleitei-as e ablui-me e aleitei-me. Esperei até as 11 horas, um certo alguém. Ele não veio. Tomei um melhorai e deitei-me novamente. Quando despertei o astro rei deslisava no espaço. A minha filha Vera Eunice dizia: - Vai buscar agua mamãe! 16 DE JULHO Levantei. Obedeci a Vera Eunice. Fui buscar agua. Fiz o café. Avisei as crianças que não tinha pão. Que tomassem café simples e comesse carne com farinha. Eu estava indisposta, resolvi benzer-me. Abri a boca duas vezes, certifiquei-me que estava com mau olhado. A indisposição desapareceu sai e fui ao seu Manoel levar umas latas para vender. Tudo quanto eu encontro no lixo eu cato para vender. Deu 13 cruzeiros. Fiquei pensando que precisava comprar pão, sabão e leite para a Vera Eunice. E os 13 cruzeiros não dava! Cheguei em casa, aliás no meu barracão, nervosa e exausta. Pensei na vida atribulada que eu levo. Cato papel, lavo roupa para dois jovens, permaneço na rua o dia todo. E estou sempre em falta. A Vera não tem sapatos. E ela não gosta de andar descalça. Faz uns dois anos, que eu pretendo comprar uma maquina de moer carne. E uma maquina de costura. Cheguei em casa, fiz o almoço para os dois meninos. Arroz, feijão e carne. E vou sair para catar papel. Deixei as crianças. Recomendei-lhes para brincar no quintal e não sair na rua, porque os péssimos vizinhos que eu tenho não dão socego aos meus filhos. Saí indisposta, com vontade de deitar. Mas, o pobre não repousa. Não tem o Pagina 5 previlegio de gosar descanço. Eu estava nervosa interiormente, ia maldizendo a sorte (...) Catei dois sacos de papel. Depois retornei, catei uns ferros, uma latas, e lenha. Vinha pensando. Quando eu chegar na favela vou encontrar novidades. Talvez a Dona Rosa ou a indolente Maria dos Anjos brigaram com meus filhos. Encontrei a Vera Eunice dormindo e os meninos brincando na rua. Pensei: são duas horas. Creio que vou passar o dia sem novidade! O João José veio avisar-me que a perua que dava dinheiro estava chamando para dar mantimentos. Peguei a sacola e fui. Era o dono do Centro Espirita da rua Vergueiro 103. Ganhei dois quilos de arroz, idem de feijão e dois quilos de macarrão. Fiquei contente. A perua foi-se embora. O nervoso interior que eu sentia ausentou-se. Aproveitei a minha calma interior para eu ler. Peguei uma revista e sentei no capim, recebendo os raios solar para aquecer-me. Li um conto. Quando iniciei outro surgiu os filhos pedindo pão. Escrevi um bilhete e dei ao meu filho João José para ir ao Arnaldo comprar um sabão, dois melhoraes e o resto pão. Puis agua no fogão para fazer café. O João retornou-se. Disse que havia perdido os melhoraes. Voltei com ele para procurar. Não encontramos. Quando eu vinha chegando no portão encontrei uma multidão. Crianças e mulheres, que vinha reclamar que o José Carlos havia apedrejado suas casas. Para eu repreendê-lo. 17 DE JULHO Domingo. Um dia maravilhoso. O céu azul sem nuvem. O Sol está tépido. Deixei o leito as 6,30. Fui buscar agua. Fiz café. Tendo só um pedaço de pão e 3 cruzeiros. Dei um pedaço a cada um, puis feijão no fogo que ganhei ontem do Centro Espirita da Rua Vergueiro 103. Fui lavar minhas roupas. Quando retornei do rio o feijão estava cosido. Os filhos pediram pão. Dei os 3 cruzeiros ao João José para ir comprar pão. Hoje é a Nair Mathias quem começou impricar com os meus filhos. A Silvia e o esposo jã iniciaram o espetáculo ao ar livre. Ele está lhe espancando. E eu estou revoltada com o que as crianças presenciam. Ouvem palavras de baixo calão. Oh! se eu pudesse mudar daqui para um núcleo mais decente. Fui na Dona Floreia pedir um dente de alho. E fui na Dona Analia. E recebi o que esperava: - Não tenho! Fui torcer as minhas roupas. A Dona Aparecida perguntou-me: Pagina 6 - A senhora está gravida? - Não senhora - respondi gentilmente. E lhe chinguei interiormente. Se estou gravida não é de sua conta. Tenho pavor destas mulheres da favela. Tudo quer saber! A lingua delas é como os pés de galinha. Tudo espalha. Está circulando rumor que eu estou gravida! E eu, não sabia! Saí a noite, e fui catar papel. Quando eu passava perto do campo do São Paulo (nota 1), varias pessoas saiam do campo. Todas brancas, só um preto. E o preto começou insultar-me: - Vai catar papel, minha tia? Olha o buraco, minha tia. Eu estava indisposta. Com vontade de deitar. Mas, prossegui. Encontrei varias pessoas amigas e parava para falar. Quando eu subia a Avenida Tiradentes encontrei umas senhoras. Uma perguntou-me: - Sarou as pernas? Depois que operei, fiquei boa, graças a Deus. E até pude dançar no Carnaval, com minha fantasia de penas. Quem operou- me foi o Doutor José Torres Netto. Bom médico. E falamos de políticos. Quando uma senhora perguntou-me o que acho do Carlos Lacerda, respondi concientemente: - Muito inteligente. Mas não tem iducação. E um político de cortiço. Que gosta de intriga. Um agitador. Uma senhora disse que foi pena! A bala que pegou o major podia acertar no Carlos Lacerda (nota 2). - Mas o seu dia... chegará - comentou outra. Varias pessoas afluiram-se. Eu, era o alvo das atenções. Fiquei apreensiva, porque eu estava catando papel, andrajosa (...) Depois, não mais quiz falar com ninguém, porque precisava catar papel. Precisava de dinheiro. (nota 1)Aía época, o campo do São Paulo Futebol Clube localizava-se no bairro do Canindé, onde hoje é o estádio da Portuguesa de Desportos. (N.E.) (nota 2)Carlos Lacerda (1914-1977): político carioca, opositor ferrenho do segundo governo de Getúlio Vargas. Em (954 sofreu um atentado em que morreu o major Rubens Vaz, fato que desencadeou grave crise política no país. (N.E) Pagina 7 Eu não tinha dinheiro em casa para comprar pão. Trabalhei até as 11,30. Quando cheguei em casa era 24 horas. Esquentei comida, dei para a Vera Eunice, jantei e dei tei-me. Quando despertei, os raios solares penetrava pelas frestas do barracão. 18 DE JULHO Levantei as 7 horas. Alegre e contente. Depois que veio os aborrecimentos. Fui no deposito receber... 60 cruzeiros. Passei no Arnaldo. Comprei pão, leite, paguei o que devia e reservei dinheiro para comprar Licor de Cacau para Vera Eunice. Cheguei no inferno. Abri a porta e pus os meninos para fora. A Dona Rosa, assim que viu o meu filho José Carlos começou impricar com ele. Não queria que o menino passasse perto do barracão dela. Saiu com um pau para espancá-lo. Uma mulher de 48 anos brigar com criança! As vezes eu saio, ela vem até a minha janela e joga o vaso de fezes nas crianças. Quando eu retorno, encontro os travesseiros sujos e as crianças fétidas. Ela odeia-me. Diz que sou preferida pelos homens bonitos e distintos. E ganho mais dinheiro do que ela. Surgio a Dona Cecilia. Veio repreender os meus filhos. Lhe joguei uma direta, ela retirou-se. Eu disse: - Tem mulher que diz saber criar os filhos, mas algumas tem filhos na cadeia classificado como mau elemento. Ela retirou-se. Veio a indolente Maria dos Anjos. Eu disse: - Eu estava discutindo com a nota, já começou chegar os trocos. Os centavos. Eu não vou na porta de ninguém. E vocês quem vem na minha porta aborrecer-me. Eu nunca chinguei filhos de ninguém, nunca fui na porta de vocês reclamar contra seus filhos. Não pensa que eles são santos. E que eu tolero crianças. Veio a Dona Silvia reclamar contra os meus filhos. Que os meus filhos são mal iducados. Mas eu não encontro defeito nas crianças. Nem nos meus nem nos dela. Sei que criança não nasce com senso. Quando falo com uma criança lhe dirijo palavras agra- daveis. O que aborrece-me é elas vir na minha porta para perturbar a minha escassa tranquilidade interior (...) Mesmo elas aborrecendo-me, eu escrevo. Sei dominar meus impulsos. Tenho apenas dois anos de grupo escolar, mas procurei formar o meu carater. A unica coisa que não existe na favela é solidariedade. Veio o peixeiro Senhor Antonio Lira e deu-me uns peixes. Vou fazer o almoço. As mulheres saíram, deixou-me em paz por hoje. Elas já deram o espetáculo. A minha Pagina 8 porta atualmente é the- atro. Todas crianças jogam pedras, mas os meus filhos são os bodes expiatórios. Elas alude que eu não sou casada. Mas eu sou mais feliz do que elas. Elas tem marido. Mas, são obrigadas a pedir esmolas. São sustentadas por associações de caridade. Os meus filhos não são sustentados com pão de igreja. Eu enfrento qualquer especie de trabalho para mantê-los. E elas, tem que mendigar e ainda apanhar. Parece tambor. A noite enquanto elas pede socorro eu tranquilamente no meu barracão ouço valsas vienenses. Enquanto os esposos quebra as tabuas do barracão eu e meus filhos dormimos socegados. Não invejo as mulheres casadas da favela que levam vida de escravas indianas. Não casei e não estou descontente. Os que preferiu me eram soezes e as condições que eles me impunham eram horríveis. Tem a Maria José, mais conhecida por Zefa, que reside no barracão da Rua B numero 9. E uma alcoólatra. Quando está gestante bebe demais. E as crianças nascem e morrem antes dos doze meses. Ela odeia-me porque os meus filhos vingam e por eu ter radio. Um dia ela pediu-me o radio emprestado. Disse-lhe que não podia emprestar. Que ela não tinha filhos, podia trabalhar e comprar. Mas, é sabido que pessoas que são dadas ao vicio da em- briaguês não compram nada. Nem roupas. Os ébrios não prosperam. Ela as vezes joga agua nos meus filhos. Ela alude que eu não expanco os meus filhos. Não sou dada a violência. OJosé Carlos disse: - Não fique triste mamãe! Nossa Senhora Aparecida há de ter dó da senhora. Quando eu crescer eu compro uma casa de tijolos para a senhora. Fui catar papel e permaneci fora de casa uma hora. Quando retornei vi varias pessoas as margens do rio. E que lá estava um senhor inconciente pelo álcool e os homens indolentes da favela lhe vasculhavam os bolsos. Roubaram o dinheiro e rasgaram os documentos (...) É 5 horas. Agora que o Senhor Heitor ligou a luz! E eu, vou lavar as crianças para irem para o leito, porque eu preciso sair. Preciso dinheiro para pagar a luz. Aqui é assim. A gente não gasta luz, mas precisa pagar. Saí e fui catar papel. Andava depressa porque já era tarde. Encontrei uma senhora. Ia maldizendo sua vida conjugal. Observei mas não disse nada. (...) Amarrei os sacos, puis as latas que catei no outro saco e vim para casa. Quando cheguei liguei o radio para saber as horas. Era 23,55. Esquentei comida, li, despi-me e depois deitei. O sono Pagina 9 surgiu logo. 19 DE JULHO Despertei as 7 horas com a conversa dos meus filhos. Deixei o leito, fui buscar agua. As mulheres já estavam na torneira. As latas em fila. Assim que cheguei a Florenciana perguntou-me: - De que partido é aquela faixa? Li P.S.B. e respondi Partido Social Brasileiro (nota 3). Passou o Senhor Germano, ela perguntou novamente: - Senhor Germano, esta faixa é de que partido? - Dojanio (nota 4, 5)! Ela rejubilou-se e começou dizer que o Dr. Ademar de Barros (nota 3) é um ladrão. Que só as pessoas que não presta é que aprecia e acata o Dr. Adhemar. Eu, e Dona Maria Puerta, uma espanhola muito boa, defendíamos o Dr. Adhemar. Dona Maria disse: - Eu, sempre fui ademarista. Gosto muito dele, e de Dona Leonor. A Florenciana perguntou: - Ele jã deu esmola a senhora? - Já, deu o Hospital das Clínicas. Chegou a minha vez, puis a minha lata para encher. A Florenciana prosseguiu elogiando o Janio. A agua começou diminuir na torneira. Começaram a falar da Rosa. Que ela carregava agua desde as 4 horas da madrugada, que ela lavava toda roupa em casa. Que ela precisa pagar 20 cruzeiros por mês. Minha lata encheu, eu vim embora. ...Estive revendo os aborrecimentos que tive esses dias (...) Suporto as contingências da vida resoluta. Eu não consegui armazenar para viver, resolvi armazenar paciência. Na verdade. Partido Socialista Brasileiro, que tinha apoiado Jânio Quadros ao governo do estado no (Nota 3) ano anterior e que agora apoiava Juarez Távora à Presidência da República. (N.E.) (nota 4) Jânio Quadros (1917-19921: vereador e deputado estadual por São Paulo, foi prefeito da capital e governador do estado, antes de chegar à Presidência da República em 1961, renunciando sete meses depois de assumir o cargo. (N.E.) (nota 5) Ademar de Barros (1901-19691: político paulista, foi por duas vezes governador do estado. (N.E.) Pagina 10 Nunca feri ninguém. Tenho muito senso! Não quero ter processos. O meu risgistro geral é 845.936. Fui no deposito receber o dinheiro do papel. 55 cruzeiros. Retornei depressa, comprei leite e pão. Preparei Toddy para as crianças, arrumei os leitos, puis feijão no fogo, varri o barraco. Chamei o Senhor Ireno Venancio da Silva para fazer um balanço para os meninos. Para ver se eles permanece no quintal para os visinhos não brigar com eles. Dei-lhe 16 cruzeiros. Enquanto ele fazia o balanço, eu fui ensaboar as roupas. Quando retornei, o Senhor Ireno estava terminando o balanço. Fiz alguns reparos e ele terminou. Os meninos deu valor ao balanço só na hora. Todos queriam balançar ao mesmo tempo! Fechei a porta e fui vender as latas. Levei os meninos. O dia está cálido. E eu gosto que eles receba os raios solares. Que suplicio! Carregar a Vera e levar o saco na cabeça. Vendi as latas e os metais. Ganhei 31 cruzeiros. Fiquei contente. Perguntei: - Seu Manoel, o senhor não errou na conta? - Não. Porque? - Porque o saco de latas não pesava tanto para eu ganhar 31 cruzeiros. E a quantia que eu preciso para pagar a luz. Despedi-me e retornei-me. Cheguei em casa, fiz o almoço. Enquanto as panelas fervia eu escrevi um pouco. Dei o almoço as crianças, e fui no Klabin (nota 6) catar papel. Deixei as crianças brincando no quintal. Tinha muito papel. Trabalhei depressa pensando que aquelas besras humanas são capas de invadir o meu barracão e maltratar meus filhos. Trabalhei apreensiva e agitada.' A minha cabeça começou doer. Elas costuma esperar eu sair para vir no meu barracão expancar os meus filhos. Justamente quando eu não estou em casa. Quando as crianças estão sosinhas e não podem defender-se. ...Nas favelas, as jovens de 15 anos permanecem até a hora que elas querem. Mescla-se com as meretrizes, contam suas aventuras (...) Há os que trabalham. E há os que levam a vida a torto e a direito. As pessoas de mais idade trabalham, os jovens é que renegam o trabalho. Tem as mães, que catam frutas e legu- (nota 6) Companhia Fabricadora de Papel, fundada por Maurício Klabin, um dos pioneiros da industrialização no país. IN.E.) Pagina 11 mes nas feiras. Tem as igrejas que dá pão. Tem o São Francisco que todos os meses dá mantimentos, café, sabão etc, . ..Elas vai na feira, cata cabeça de peixe, tudo que pode aproveitar. Come qualquer coisa. Tem estomago de cimento armado (...) As vezes eu ligo o radio e danço com as crianças, simulamos uma luta de boxe. Hoje comprei marmelada para eles. Assim que dei um pedaço a cada um percebi que eles me dirigiam um olhar terno. E o meu João José disse: - Que mamãe boa! Quando as mulheres feras invade o meu barraco, os meus filhos lhes joga pedras. Elas diz: - Que crianças mal iducadas! Eu digo: - Os meus filhos estão defendendo-me. Vocês são incultas, não pode compreender. Vou escrever um livro referente a favela. Hei de citar tudo que aqui se passa. E tudo que vocês me fazem. Eu quero escrever o livro, e vocês com estas cenas desagradaveis me fornece os argumentos. A Silvia pediu-me para retirar o seu nome do meu livro. Ela disse: - Você é mesmo uma vagabunda. Dormia no Albergue .Noturno. O seu fim era acabar na maloca. Eu disse: - Está certo. Quem dorme no Albergue Noturno são os indigentes. Não tem recurso e o fim é mesmo nas malocas, e Você, que diz nunca ter dormido no Albergue Noturno, o que veio fazer aqui na maloca? Você era para estar residindo numa casa própria. Porque a sua vida rodou igual a minha? Ela disse: - A unica coisa que você sabe fazer é catar papel. Eu disse: - Cato papel. Estou provando como vivo! ...Estou residindo na favela. Mas se Deus me ajudar hei de mudar daqui. Espero que os políticos estingue as favelas. Há os que prevalecem do meio em que vive, Pagina 12 demonstram valentia para intimidar os fracos. Há casa que tem cinco filhos e a velha é quem anda o dia inteiro pedindo esmola. Há as mulheres que os esposos adoece e elas no penado da enfermidade mantém o lar. Os esposos quando vê as esposas manter o lar, não saram nunca mais. Hoje não saí para catar papel. Vou deitar. Não estou cançada e não tenho sono. Hontem eu bebi uma cerveja. Hoje estou com vontade de beber outra vez. Mas, não vou beber. Não quero viciar. Tenho responsabilidade. Os meus filhos! E o dinheiro gasto em cerveja faz falta para o escencial. O que eu reprovo nas favelas são os pais que mandam os filhos comprar pinga e dá as crianças para beber. E diz: - Ele tem lumbriga. Os meus filhos reprova o álcool. O meu filho João José diz: - Mamãe, quando eu crescer, eu não vou beber. O homem que bebe não compra roupas. Não tem radio, não faz uma casa de tijolo. O dia de hoje me foi benefico. As rascoas da favela estão vendo eu escrever e sabe que é contra elas. Resolveram me deixar em paz. Nas favelas, os homens são mais tolerantes, mais delicados. As bagunceiras são as mulheres. As intrigas delas é igual a de Carlos Lacerda que irrita os nervos. E não há nervos que suporta. Mas eu sou forte! Não deixo nada imprecionar-me profundamente. Não me abato. 20 DE JULHO Deixei o leito as 4 horas para escrever. Abri a porta e contemplei o céu estrelado. Quando o astro-rei começou despontar eu fui buscar agua. Tive sorte! As mulheres não estavam na torneira. Enchi minha lata e zarpei. (...) Fui no Arnaldo buscar o leite e o pão. Quando retornava encontrei o senhor Ismael com uma faca de 30 centimetros mais ou menos. Disse-me que estava a espera do Binidito e do Miguel para matá-los, que eles lhe expancaram quando ele estava embriagado. Lhe aconselhei a não brigar, que o crime não trás vantagens a ninguém, apenas deturpa a vida. Senti o cheiro de álcool, disisti. Sei que os ébrios não atende. O senhor Ismael quando não está alcoolizado demonstra sua sapiência. Já foi telegrafista. E do Circulo Exoterico. Tem conhecimentos biblicos, gosta de dar conselhos. Mas não tem valor. Deixou o álcool lhe dominar, embora seus conselho seja util para os que gostam de levar vida decente. Pagina 13 Preparei a refeição matinal. Cada filho prefere uma coisa. A Vera, mingau de farinha de trigo torrada. O João José, café puro. O José Carlos, leite branco. E eu, mingau de aveia. Já que não posso dar aos meus filhos uma casa decente para residir, procuro lhe dar uma refeição condigna. Terminaram a refeição. Lavei os utensílios. Depois fui lavar roupas. Eu não tenho homem em casa. E só eu e meus filhos. Mas eu não pretendo relaxar. O meu sonho era andar bem limpi- nha, usar roupas de alto preço, residir numa casa confortável, mas não é possivel. Eu não estou descontente com a profissão que exerço. Já habituei-me andar suja. Já faz oito anos que cato papel. O desgosto que tenho é residir em favela. Durante o dia, os jovens de 15 e 18 anos sentam na grama e falam de roubo. E já tentaram assaltar o emporio do senhor Raymundo Guello. E um ficou carimbado com uma bala. O assalto teve inicio as 4 horas. Quando o dia clareou as crianças catava dinheiro na rua e no capinzal. Teve criança que catou vinte cruzeiros em moeda. E sorria exibindo o dinheiro. Mas o juiz foi severo. Castigou impiedosamente. Fui no rio lavar as roupas e encontrei Dona Mariana. Uma mulher agradavel e decente. Tem 9 filhos e um lar modelo. Ela e o esposo tratam-se com iducação. Visam apenas viver em paz. E criar filhos. Ela também ia lavar roupas. Ela disse-me que o Binidito da Dona Geralda todos os dias ia preso. Que a Radio Patrulha cançou de vir buscá-lo. Arranjou serviço para ele na cadeia. Achei graça. Dei risada! Estendi as roupas rapidamente e fui catar papel. Que suplicio catar papel atualmente! Tenho que levar a minha filha Vera Eunice. Ela está com dois anos, e não gosta de ficar em casa. Eu ponho o saco na cabeça e levo-a nos braços. Suporto o peso do saco na cabeça e suporto o peso da Vera Eunice nos braços. Tem hora que revolto-me. Depois domino-me. Ela não tem culpa de estar no mundo. Refleti: preciso ser tolerante com os meus filhos. Eles não tem ninguém no mundo a não ser eu. Como é pungente a condição de mulher sozinha sem um homem no lar. Aqui, todas impricam comigo. Dizem que falo muito bem. Que sei atrair os homens. (...) Quando fico nervosa não gosto de discutir. Prefiro escrever. Todos os dias eu escrevo. Sento no quintal e escrevo. Pagina 14 Não posso sair para catar papel. A Vera Eunice não quer dormir, e nem o José Carlos. A Silvia e o marido estão discutindo. Tem 9 filhos e não respeitam-se. Brigam todos os dias. ...Vendi o papel, ganhei 140 cruzeiros. Trabalhei em excesso, senti-me mal. Tomei urnas pilulas de vida (nota 7) e deitei. Quando eu ia dormindo despertava com a voz do senhor Antonio Andrade discutindo com a esposa. 21 DE JULHO Despertei com a voz de Dona Maria perguntando-me se eu queria comprar banana e alface. Olhei as crianças. Estavam dormindo. Fiquei quieta. Quando eles vê as frutas sou obrigada a comprar. (...) Mandei o meu filho João José no Arnaldo comprar açúcar e pão. Depois fui lavar roupas. Enquanto as roupas corava eu sentei na calçada para escrever. Passou um senhor e perguntou-me: - O que escreve? - Todas as lambanças que pratica os favelados, estes projetos de gente humana. Ele disse: - Escreve e depois dá a um critico para fazer a revisão. Olhou as crianças ao meu redor e perguntou: - Estes filhos são seus? Olhei as crianças. Meu, era apenas dois. Mas como todas eram da mesma cor, afirmei que sim. - Seu marido onde trabalha? - Não tenho marido, e nem quero! ' Uma senhora que estava me olhando escrever despediu-se. Pensei: talvez ela não tenha apreciado a minha resposta. - E muito filho para sustentar. Ele abriu a carteira. Pensei: agora ele vai dar dinheiro a qualquer uma destas crianças pensando que todas são meus filhos. Fui imprudente mentindo. Mas a minha filha Vera Eunice ergueu o braço e disse: - Dá, eu té. Compá papato. Eu disse: - Ela está dizendo que quer o dinheiro para comprar sapatos. Ele disse: Pagina 15 (nota 7) Medicamento indicado como laxante ou purgante. (N.E.) - Dá para sua mãe. Ergui os olhos para observã-lo. Duas meninas lhe chamava papai! Eu conheço-o de vista. Já falei com ele na farmacia quando levei a Vera para tomar injeção contra resfriado. Ele seguio. Eu olhei o dinheiro que ele deu a Vera. Cem cruzeiros! Em poucos minutos o boato circulou que a Vera ganhou cem cruzeiros. E pensei na eficiência da lingua humana para transmitir uma noticia. As crianças aglomerava-se. Eu levantei e fui sentar perto da casa de Dona Mariana. E lhe pedir um pouco de café. Já habituei beber café na casa do Seu Lino. Tudo que eu peço a eles emprestado, eles empresta. Quando eu vou pagar, não recebem. Depois fui torcer as roupas e vim preparar o almoço. Hoje eu estou cantando. Estou alegre e já pedi aos visinhos para não me aborrecer. Todos nois temos o nosso dia de alegria. Hoje é o meu! Uma menina por nome Amalia diz a mãe que o espirito lhe pega.. Saiu correndo para se jogar no rio. Varias mulheres lhe impedio o gesto. Passei o resto da tarde escrevendo. As quatro e meia o senhor Heitor ligou a luz. Dei banho nas crianças e preparei para sair. Fui catar papel, mas estava indisposta. Vim embora porque o frio era demais. Quando cheguei em casa era 22,30. Liguei o radio. Tomei banho. Esquentei comida. Li um pouco. Não sei dormir sem ler. Gosto de manusear um livro. O livro é a melhor invenção do homem. 22 DE JULHO ...Tem hora que revolto com a vida atribulada que levo. E tem hora que me conformo. Conversei com uma senhora que cria uma menina de cor. E tão boa para a menina... Lhe compra vestidos de alto preço. Eu disse: - Antigamente eram os pretos que criava os brancos. Hoje são os brancos que criam os pretos. A senhora disse que cria a menina desde 9 meses. E que a negrinha dorme com ela e que lhe chama de mãe. Surgiu um moço. Disse ser seu filho. Contei umas anedotas. Eles riram e eu segui cantando. Comecei catar papel. Subi a rua Tiradentes, cumprimentei as senhoras que Pagina 16 conheço. A dona da tinturaria disse: - Coitada! Ela é tão boazinha. Fiquei repetindo no pensamento: "Ela é boazinha!'' ...Eu gosto de ficar dentro de casa, com as portas fechadas. Não gosto de ficar nas esquinas conversando. Gosto de ficar sozinha e lendo. Ou escrevendo! Virei na rua Frei Antonio Galvão. Quase não tinha papel. A Dona Nair Barros estava na janela. (...) Eu falei que residia em favela. Que favela é o pior cortiço que existe. ...Enchi dois sacos na rua Alfredo Maia. Levei um até ao ponto e depois voltei para levar outro. Percorri outras ruas. Conversei um pouco com o senhor João Pedro. Fui na casa de uma preta levar umas latas que ela havia pedido. Latas grandes para plantar flores. Fiquei conhecendo uma pretinha muito limpinha que falava muito bem. Disse ser costureira, mas que não gostava da profissão. E que admirava-me. Catar papel e cantar. Eu sou muito alegre. Todas manhãs eu canto. Sou como as aves, que cantam apenas ao amanhecer. De manhã eu estou sempre alegre. A primeira coisa que faço é abrir a janela e contemplar o espaço. 23 DE JULHO Liguei o radio para ouvir o drama (nota 8). Fiz o almoço e deitei. Dormi uma hora e meia. Nem ouvi o final da peça. Mas, eu jã conhecia a peça. Comecei fazer o meu diário. De vez em quando parava para repreender os meus filhos. Bateram na porta. Mandei o João José abrir e mandar entrar. Era o Seu João. Perguntou-me onde encontrar folhas de batatas para sua filha buchechar um dente. Eu disse que na Portuguesinha era possi- vel encontrar. Quiz saber o que eu escrevia. Eu disse ser o meu diário. - Nunca vi uma preta gostar tanto de livros como você. Todos tem um ideal. O meu é gostar de ler. O Seu João deu cinquenta centavos para cada menino. Quando ele me conheceu eu tinha só dois meninos. Ninguém tem me aborrecido. Graças a Deus. 24 DE JULHO Levantei cinco horas para ir buscar agua. Hoje é domingo, as favelas recolhem agua mais tarde. Mas, eu já habituei-me levantar cedo. Comprei pão Pagina 17 e sabão. Puis feijão no fogo e fui lavar roupas. No rio chegou Adair Mathias, lamentando que sua mãe tinha satdo, e ela tinha que fazer almoço e lavar roupas. Disse que sua mãe era forte, mas que agora lhe puzeram fei 8 Referência às radionoveJas, dramas radiofónicos de grande popularidade no Brasil no período do pós-guerra até meados da década de 50. (N.E) tiço. Que o curador disse que era a feiticeira. Mas o feitiço que invade a família Mathias é o álcool. Esta é a minha opinião. A Dona Mariana lamentava que seu esposo estava demorando a regressar. Puis as roupas para quarar e vim fazer o almoço. Quando cheguei em casa encontrei a Dona. Francisca brigando com meu filho João José. Uma mulher de quarenta anos discutindo com uma criança de seis anos. Puis o menino para dentro e fechei o portão. Ela continuou falando. Para fazer ela calar é preciso lhe dizer; - Cala a boca tuberculosa! Não gosto de aludir os males físicos porque ninguém tem culpa de adquirir moléstias contagiosas. Mas quando a gente percebe que não pode tolerar a impricancia do analfabeto, apela para as enfermidades. O Seu João veio buscar as folhas de batatas. Eu disse-ihe; - Se eu pudesse mudar desta favela! Tenho a impressão ,que estou no inferno. ...Sentei ao sol para escrever. A filha da Silvia, uma menina de seis anos, passava e dizia: - Está escrevendo, negra fídida! A mãe ouvia e não repreendia. São as mães que instigam. 25 DE JULHO Amanheci contente. Estou cantando. As únicas horas que tenho socego aqui na favela é de manhã. Hoje a Dona Francisca mandou sua filha de sete anos provocar-me, mas eu estava com muito sono. Fechei a porta e deitei. (...) Fui visitar o filho recem nascido de Dona Maria Puerta, uma espanhola de primeira. A jóia da favela. E o ouro no meio de chumbo. Pagina 18 27 DE JULHO Levantei de manhã e fui buscar agua. Discuti com o esposo da Silvia porque ele não queria deixar eu encher minhas latas. Não tinha dinheiro em casa. Esquentei comida amanhecida e dei aos meninos. O Senhor Ireno disse-me que esta noite houve roubo na favela. Que roubaram roupas da Dona Floreia e mil cruzeiros de Dona. Paulina. O meu barracão também está sendo visado. Duas noites que não saio para catar papel. Para evitar aborrecimentos, eu levei o radio para a casa de Dona Floreia. E eu que estou querendo comprar uma maquina de costura. Seu Gino veio dizer-me para eu ir no quarto dele. Que eu estou lhe despresando. Disse-lhe: Não! E que eu estou escrevendo um livro, para vendê-lo. Viso com esse dinheiro comprar um terreno para eu sair da favela. Não tenho tempo para ir na casa de ninguém. Seu Gino insistia. Ele disse: - Bate que eu abro a porta. Mas o meu coração não pede para eu ir no quarto dele. 28 DE JULHO ...Fiquei horrorisada! Haviam queimado meus cinco sacos de papel. A neta de Dona Elvira, a que tem duas meninas e que não quer mais filhos porque o marido ganha pouco, disse: - Nós vimos a fumaça. Também a senhora põe os sacos ali no caminho. Ponhe lá no mato onde ninguém os vê. Eu ouvi dizer que vocês lá da favela vivem uns roubando os outros. Quando elas falam não sabem dizer outra coisa a não ser roubo. Percebi que foi ela quem queimou meus sacos. Resolvi retirar com nojo delas. Aliás já haviam dito-me que eles são uns portugueses malvados. Que a Dona Elvira nunca fez um favor a ninguém. Para eu ficar previnida. Não estou ressentida. Já estou tão habituada com a maldade humana. Sei que os sacos vão me fazer falta. Fim do diário de 1955 Pagina 19 2 DE MAIO DE 1958 Eu não sou indolente. Há tempos que eu pretendia fazer o meu diário. Mas eu pensava que não tinha valor e achei que era perder tempo. Eu fiz uma reforma em mim. Quero tratar as pessoas que eu conheço com mais atenção. Quero enviar um sorriso amavel as crianças e aos operários. Recebi intimação para comparecer as 8 horas da noite na Delegacia do 12. Passei o dia catando papel. A noite os meus pés doiam tanto que eu não podia andar. Começou chover. Eu ia na Delegacia, ia levar o José Carlos. A intimação era para ele. O José Carlos está com 9 anos. 3 DE MAIO .. .Fui na feira da Rua Carlos de Campos, catar qualquer coisa. Ganhei bastante verdura. Mas ficou sem efeito, porque eu não tenho gordura. Os meninos estão nervosos por não ter o que comer. 6 DE MAIO De manhã não fui buscar agua. Mandei o João carregar. Eu estava contente. Recebi outra intimação. Eu estava inspirada e os versos eram bonitos e eu esqueci de ir na Delegacia. Era 11 horas quando eu recordei do convite do ilustre tenente da 12? Delegacia. O que eu aviso aos pretendentes a política, é que o povo não tolera a fome. E preciso conhecer a fome para saber descrevê-la. Estão construindo um circo aqui na Rua Araguaia. Circo Theatro Nilo. 9 DE MAIO ...Eu cato papel, mas não gosto. Então eu penso: Faz de conta que eu estou sonhando. 10 DE MAIO Fui na delegacia e falei com o tenente. Que homem amavel! Se eu soubesse que ele era tão amavel, eu teria ido na delegacia na primeira intimação. (...) O tenente interessou- se pela educação dos meus filhos. Disse-me que a favela é um ambiente propenso, que as pessoas tem mais possibilidades de delin- quir do que tornar-se util a patria e ao país. Pensei: Se ele sabe disto, porque não faz um relatorio Pagina 20 e envia para os políticos? O senhor Janio Quadros, o Kubstchek (nota 9) e o Dr. Adhemar de Barros? Agora falar para mim, que sou uma pobre lixeira. Não posso resolver nem as minhas dificuldades. O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar no proximo, e nas crianças. 11 DE MAIO Dia das Mães. O céu está azul e branco. Parece que até a Natureza quer homenagear as mães que atualmente se sentem infeliz por não poder realisar os desejos dos seus filhos. ...O sol vai galgando. Hoje não vai chover. Hoje é o nosso dia. ...A Dona Teresinha veio visitar-me. Ela deu-me 15 cruzeiros. Disse-me que era para a Vera ir no circo. Mas eu vou deixar o dinheiro para comprar pão amanhã, porque eu só tenho 4 cruzeiros. ...Ontem eu ganhei metade de uma cabeça de porco no Frigorifico. Comemos a carne e guardei os ossos. E hoje puis os ossos (Nota 9) Juscelíno Kubitschek {1902-1976): presidente da República entre 1956 e 1961. No seu governo, buscou o desenvolvimento do país pela abertura aos investimentos estrangeiros e transferiu o Distrito Federa! para Brasília. (N.E.) para ferver. E com o caldo fiz as batatas. Os meus filhos estão sempre com fome. Quando eles passam muita fome eles não são exigentes no paladar. Surgiu a noite. As estrelas estão ocultas. O barraco está cheio de pernilongos. Eu vou acender uma folha de jornal e passar pelas paredes. É assim que os favelados matam mosquitos. 13 DE MAIO Hoje amanheceu chovendo. É um dia simpático para mim. E o dia da Abolição. Dia que comemoramos a libertação dos escravos. Nas prisões os negros eram os bodes espiatorios. Mas os brancos agora são mais cultos. E não nos trata com despreso. Que Deus ilumine os brancos para que os pretos Pagina 21 sejam feliz. Continua chovendo. E eu tenho só feijão e sal. A chuva está forte. Mesmo assim, mandei os meninos para a escola. Estou escrevendo até passar a chuva, para eu ir lá no senhor Manuel vender os ferros. Com o dinheiro dos ferros vou comprar arroz e linguiça. A chuva passou um pouco. Vou sair. ...Eu tenho tanto dó dos meus filhos. Quando eles vê as coisas de comer eles brada: - Viva a mamãe! A manifestação agrada-me. Mas eu já perdi o habito de sorrir. Dez minutos depois eles querem mais comida. Eu mandei o João pedir um pouquinho de gordura a Dona Ida. Ela não tinha. Mandei-lhe um bilhete assim: - "Dona Ida peço-te se pode me arranjar um pouco de gordura, para eu fazer uma sopa para os meninos. Hoje choveu e eu não pude ir catar papel. Agradeço. Carolina." Choveu, esfriou. E o inverno que chega. E no inverno a gente come mais. A Vera começou pedir comida. E eu não tinha. Era a reprise do espetáculo. Eu estava com dois cruzeiros. Pretendia comprar um pouco de farinha para fazer um virado. Fui pedir um pouco de banha a Dona Alice. Ela deu-me a banha e arroz. Era 9 horas da noite quando comemos. E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual - a fome! 15 DE MAIO Tem noite que eles improvisam uma batucada e não deixa ninguém dormir. Os visinhos de alvenaria já tentaram com abaixo assinado retirar os favelados. Mas não conseguiram. Os visinhos das casas de tijolos diz: - Os políticos protegem os favelados. Quem nos protege é o povo e os Vicentinos. Os políticos só aparecem aqui nas épocas eleitoraes. O senhor Cantidio Sampaio quando era vereador em 1953 passava os domingos aqui na favela. Ele era tão agradavel. Tomava nosso café, bebia nas nossas xícaras. Ele nos dirigia as suas frases de viludo. Brincava com nossas crianças. Deixou boas impressões por aqui e quando candidatou- sc a deputado venceu. Mas na Camara dos Deputados não criou um progeto para beneficiar o favelado. Não nos Pagina 22 visitou mais. Eu classifico São Paulo assim: O Palacio, é a sala de visita. A Prefeitura é a sala de jantar e a cidade é o jardim. E a favela é o quintal onde jogam os lixos. A noite está tépida. O céu já está salpicado de estrelas. Eu que sou exótica gostaria de recortar um pedaço do céu para fazer um vestido. Começo ouvir uns brados. Saio para a rua. E o Ramiro que quer dar no senhor Binidito. Mal entendido. Caiu uma ripa nó fio da luz e apagou a luz da casa do Ramiro. Por isso o Ramiro queria bater no senhor Binidito. Porque o Ramiro é forte e o senhor Binidito é fraco. O Ramiro ficou zangado porque eu fui a favor do senhor Binidito. Tentei concertar os fios. Enquanto eu tentava concertar o fio o Ramiro queria expancar o Binidito que estava alcoolisado e não podia parar de pé. Estava inconciente. Eu não posso descrever o efeito do álcool porque não bebo. Já bebi uma vez, em cara- ter experimental, mas o álcool não me tonteia. Enquanto eu pretendia concertar a luz o Ramiro dizia: - Liga a luz, liga a luz sinão eu te quebro a cara. O fio não dava para ligar a luz. Precisava emendá-lo. Sou leiga na eletricidade. Mandei chamar o senhor Alfredo, que é o atual encarregado da luz. Ele estava nervoso. Olhava o senhor Binidito com despreso. A Juana que é esposa do Binidito deu cinquenta cruzeiros para o senhor Alfredo. Ele pegou o dinheiro. Não sorriu. Mas ficou alegre. Percebi pela sua fisionomia. Enfim o dinheiro dissipou o nervosismo. 16 DE MAIO Eu amanheci nervosa. Porque eu queria ficar em casa, mas eu não tinha nada para comer. ...Eu não ia comer porque o pão era pouco. Será que é só eu que levo esta vida? O que posso esperar do futuro? Um leito em Campos do Jordão (nota 10). Eu quando estou com fome quero matar ojanio, quero enforcar o Adhemar e queimar ojuscelino. As dificuldades corta o afeto do povo pelos políticos. 17 DE MAIO Levantei nervosa. Com vontade de morrer. Já que os pobres estão mal colocados, para que viver? Será que os pobres de outro País sofrem igual aos pobres do Brasil? Eu estava discontente que até cheguei a brigar com o meu filho José Carlos Pagina 23 sem motivo. ...Chegou um caminhão aqui na favela. O motorista e o seu ajudante jogam umas latas. É linguiça enlatada. Penso: E assim que fazem esses comerciantes insaciáveis. Ficam esperando os preços subir na ganancia de ganhar mais. E quando apodrece jogam fora para os corvos e os infelizes favelados. Não houve briga. Eu até estou achando isto aqui monotono. Vejo as crianças abrir as latas de linguiça e exclamar satisfeitas: - Hum! Tá gostosa! A Dona Alice deu-me uma para experimentar. Mas a lata está estufada. Já está podre. 18 DE MAIO ...Na favela tudo circula num minuto. E a noticia já circulou que a Dona Maria José faleceu. Varias pessoas vieram vê-la. Compareceu o vicentino que cuidava dela. Ele vinha visitá- la todos os domingos. Ele não tem nojo dos favelados. Cuida dos míseros favelados com carinho. Isto competia ao tal Serviço Social. Chegou o esquife. Cor roxa. Cor da amargura que envolve os corações dos favelados. A Dona Maria era crente e dizia que os crentes antes de morrer já estão no céu. O enterro é as treis da tarde. Os crentes estão entoando um hino. As vozes são afinadas. Tenho a impressão que são anjos que cantam. Não vejo ninguém bêbado. Talvez seja por respeito a extinta. Mas duvido. Acho que é porque eles não tem dinheiro. Chegou o carro para conduzir o corpo sem vida de Dona Maria José que vai para a sua verdadeira casa própria que é a sepultura. A Dona Maria José era muito boa. Dizem que os vivos (nota 10) Campos do Jordão: estância climática paulista, tradicionalmente procurada para tratamento de tuberculose. (N.E.) devem perdoar os mortos. Porque todos nós temos os nossos momentos de fraquesa. Chegou o carro fúnebre. Estão esperando a hora para sair o enterro. Vou parar de escrever. Vou torcer as roupas que ensaboei ontem. Não gosto de Pagina 24 ver enterros. 19 DE MAIO Deixei o leito as 5 horas. Os pardais jã estão iniciando a sua sinfonia matinal. As aves deve ser mais feliz que nós. Talvez entre elas reina amizade e igualdade. (...) O mundo das aves deve ser melhor do que dos favelados, que deitam e não dormem porque deitam-se sem comer. O que o senhor Juscelino tem de aproveitável é a voz. Parece um sabiá e a sua voz é agradavel aos ouvidos. E agora, o sabiá está residindo na gaiola de ouro que é o Catete 11. Cuidado sabiá, para não perder esta gaiola, porque os gatos quando estão com fome contempla as aves nas gaiolas. E os favelados são os gatos. Tem fome. Deixei de meditar quando ouvi a voz do padeiro: - Olha o pão doce, que está na hora do café! Mal sabe ele que na favela é a minoria quem toma café. Os favelados comem quando arranjam o que comer. Todas as familias que residem na favela tem filhos. Aqui residia uma espanhola Dona Maria Puerta. Ela comprou um terreno e começou econo- misar para fazer a casa. Quando terminou a construção da casa os filhos estavam fracos do pulmão. E são oito crianças. Havia pessoas que nos visitava e dizia: - Credo, para viver num lugar assim só os porcos. Isto aqui é o chiqueiro de São Paulo. Eu estou começando a perder o interesse pela existência. Começo a revoltar. E a minha revolta é justa. Lavei o assoalho porque estou esperando a visita de um futuro deputado e ele quer que eu faça uns discursos para ele. Ele disse que pretende conhecer a favela, que se for eleito há de abolir as favelas. (nota 11) Referência ao palácio do Catete, situado no Rio de Janeiro e na época residência oficiai do presidente da República. (N.E.) Contemplava extasiada o céu cor de anil. E eu fiquei compreendendo que eu adoro o meu Brasil. O meu olhar posou nos arvoredos que existe no inicio da rua Pedro Vicente. As folhas movia-se. Pensei: elas estão aplaudindo este meu gesto de Pagina 25 amor a minha Patria. (...) Toquei o carrinho e fui buscar mais papeis. A Vera ia sorrindo. E eu pensei no Casemiro de Abreu, que disse: "Ri criança. A vida é bela". Só se a vida era boa naquele tempo. Porque agora a epoca esta apropriada para dizer: "Chora criança. A vida é amarga". Eu ando tão preocupada que ainda não contemplei os jardins da cidade. E epoca das flores brancas, a cor que predomina. E o mês de Maria e os altares deve estar adornados com flores brancas. Devemos agradecer Deus, ou a Natureza que nos deu as estrelas para adornar o céu, e as flores para adornar os prados e as var- zeas e os bosques. Quando eu seguia na Avenida Cruzeiro do Sul ia uma senhora com um sapato azul e uma bolsa azul. A Vera disse-me: - Olha mamãe. Que mulher bonita! Ela vai no meu carro. E que a minha filha Vera Eunice diz que vai comprar um carro só para carregar pessoas bonitas. A mulher sorrio e a Vera prosseguio: - A senhora é cheirosa! Percebi que a minha filha sabe bajular. A mulher abriu a bolsa e deu-lhe 20 cruzeiros. Aqui na favela quase todos lutam com dificuldades para viver. Mas quem manifesta o que sofre é só eu. E faço isto em prol dos outros. Muitos catam sapatos no lixo para calçar. Mas os sapatos já estão fracos e aturam só 6 dias. Antigamente, isto é de 1950 até 1956, os favelados cantavam. Faziam batucadas. 1957, 1958, a vida foi ficando causticante. Já não sobra dinheiro para eles comprar pinga. As batucadas foram cortando-se até extinguir-se. Outro dia eu encontrei um soldado. Perguntou-me: - Você ainda mora na favela? - Porque? - Porque vocês deixaram a Radio Patrulha em paz. - E o dinheiro que não sobra para a aguardente. ...Deitei o João e a Vera e fui procurar o José Carlos. Telefonei para a Central. Nem sempre o telefone resolve as coisas. Tomei o bonde e fui. Eu não sentia frio. Parece que o meu sangue estava a 40 graus. Fui falar com a Policia Feminina que me deu a noticia do José Carlos que estava lá na rua Asdrubal Nascimento. (nota 12) Que alivio! Só quem é mãe é que pode avaliar. Pagina 26 Eu dirigi para a rua Asdrubal Nascimento. Eu não sei andar a noite. A fusão das luzes desviam-me do roteiro. Preciso ir perguntando. Eu gosto da noite só para contemplar as estrelas sin- tilantes, ler e escrever. Durante a noite há mais silencio. Cheguei na rua Asdrubal Nascimento, o guarda mandou- me esperar. Eu contemplava as crianças. Umas choravam, outras estavam revoltadas com a interferencia da Lei que não lhes permite agir a sua vontade. O José Carlos estava chorando. Quando ouviu a minha voz ficou alegre. Percebi o seu contentamento. Olhou- me. E foi o olhar mais terno que eu já recebi até hoje. ...As oito e meia da noite eu já estava na favela respirando o odor dos excrementos que mescla com o barro podre. Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo. 20 DE MAIO O dia vinha surgindo quando eu deixei o leito. A Vera despertou e cantou. E convidou-me para cantar. Cantamos. O João e o José Carlos tomaram parte. Amanheceu garoando. O Sol está elevando-se. Mas o seu calor não dissipa o frio. Eu fico pensando: tem epoca que é Sol que predomina. Tem epoca que é a chuva. Tem epoca que é o vento. Agora é a vez do frio. E entre eles não deve haver rivalidades. Cada um por sua vez. Abri a janela e vi as mulheres que passam rapidas com seus agasalhos descorados e gastos pelo tempo. Daqui a uns tempos estes palitol que elas ganharam de outras e que de há muito devia estar num museu, vão ser substituídos por outros. E os políticos que há de nos dar. Devo incluir-me, porque eu também sou favelada. Sou rebotalho. Estou no quarto de despejo, e o que está no quarto de despejo ou queima-se ou joga-se no lixo. (nota 12) Na rua AsdrúbaJ do Nascimento funcionava na época o Juizado de Menores. (N.E) As mulheres que eu vejo passar vão nas igrejas buscar pães para os filhos. Que o Frei Luiz lhes dá, enquanto os esposos permanecem debaixo das cobertas. Uns porque não encontram emprego. Outros porque estão doentes. Outros porque embriagam-se. Pagina 27 Eu não preocupo-me com os homens delas. Se fazem bailes eu não compareço porque não gosto de dançar. Só interfiro- me nas brigas onde prevejo um crime. Não sei a origem desra antipatia por mim. Com os homens e as mulheres eu tenho um olhar duro e frio. O meu sorriso, as minhas palavras ternas e suaves, eu reservo para as crianças. Tem um adolescente por nome Julião que as vezes expan- ca o pai. Quando bate no pai é com tanto sadismo e prazer. Acha que é invencivel. Bate como se estivesse batendo num tambor. O pai queria que ele estudasse para advocacia (...) Quando o Julião vai preso o pai lhe acompanha com os olhos rasos dagua. Como se estivesse acompanhando um santo no andor. O Julião é revoltado, mas sem motivo. Eles não precisa residir na favela. Tem casa no Alto de Vila Maria. ... As vezes mudam algumas familias para a favela, com crianças. No inicio são iducadas, amaveis. Dias depois usam o calão, são soezes e repugnantes. São diamantes que transformam em chumbo. Transformam-se em objetos que estavam na sala de visita e foram para o quarto de despejo. ...Para mim o mundo em vez de evoluir está retornando a primitividade. Quem não conhece a fome há de dizer: "Quem escreve isto é louco''. Mas quem passa fome há de dizer: - Muito bem, Carolina. Os generos alimentícios deve ser ao alcance de todos. Como é horrível ver um filho comer e perguntar: "Tem mais?. Esta palavra "tem mais'' fica oscilando dentro do cerebro de uma mãe que olha as panela e não tem mais. Quando um politico diz nos seus discursos que está ao lado do povo, que visa incluir-se na política para melhorar as nossas condições de vida pedindo o nosso voto prometendo congelar os preços, já está ciente que abordando este grave problema ele vence nas urnas. Depois divorcia-se do povo. Olha o povo com os olhos semi-cerrados. Com um orgulho que fere a nossa sensibilidade. ...Quando cheguei do palacio que é a cidade os meus filhos vieram dizer-me que havia encontrado macarrão no lixo. E a comida era pouca, eu fiz um pouco do macarrão com feijão. E o meu f ilho João José disse-me: - Pois é. A senhora disse-me que não ia mais comer as coisas do lixo. Foi a primeira vez que vi a minha palavra falhar. Eu disse: Pagina 28 - E que eu tinha fé no Kubstchek. - A senhora tinha fé e agora não tem mais? - Não, meu filho. A democracia está perdendo os seus adeptos. No nosso paiz tudo está enfraquecendo. O dinheiro é fraco. A democracia é fraca e os políticos fraquissimos. E tudo que está fraco, morre um dia. Os políticos sabem que eu sou poetisa. E que o poeta enfrenta a morte quando vê o seu povo oprimido. 27 DE MAIO Passei uma noite horrivel. Sonhei que eu residia numa casa residivel, tinha banheiro, cozinha, copa e até quarto de criada. Eu ia festejar o aniversario de minha filha Vera Euni- ce. Eu ia comprar-lhe umas panelinhas que há muito ela vive pedindo. Porque eu estava em condições de comprar. Sentei na me- sa para comer. A toalha era alva ao lirio. Eu comia bife, pão com manteiga, batata frita e salada. Quando fui pegar outro bife despertei. Que realidade amarga! Eu não residia na cidade. Estava na favela. Na lama, as margens do Tietê. E com 9 cruzeiros apenas. Não tenho açúcar porque ontem eu saí e os meninos comeram o pouco que eu tinha. Quem deve dirigir é quem tem capacidade. Quem tem dó e amisade ao povo. Quem governa o nosso país é quem tem dinheiro, quem não sabe o que é fome, a dor, e a aflição do pobre. Se a maioria revoltar-se, o que pode fazer a minoria? Eu estou ao lado do pobre, que é o braço. Braço desnutrido. Precisamos livrar o paiz dos políticos açambarcadores. Eu ontem comi aquele macarrão do lixo com receio de morrer, porque em 1953 eu vendia ferro lã no Zinho. Havia um preti- nho bonitinho. Ele ia vender ferro lá no Zinho. Ele era jovem e dizia que quem deve catar papel são os velhos. Um dia eu ia vender ferro quando parei na Avenida Bom Jardim. No Lixão, como é denominado o local. Os lixeiros haviam jogado carne no lixo. E ele escolhia uns pedaços: Disse-me: - Leva, Carolina. Dá para comer. Deu-me uns pedaços. Para não maguá-lo aceitei. Procurei convencê-lo a não comer aquela carne. Para comer os pães duros ruidos pelos ratos. Ele disse-me que não. Que há dois dias não comia. Acendeu o fogo e assou a carne. A fome era tanta que ele não poude deixar assar a carne. Esquentou-a e comeu. Para não presenciar Pagina 29 aquele quadro, saí pensando: faz de conta que eu não presenciei esta cena. Isto não pode ser real num paiz fértil igual ao meu. Revoltei contra o tal Serviço Social que diz ter sido criado para reajustar os desajustados, mas não toma conhecimento da existência infausta dos marginais. Vendi os ferros no Zinho e voltei para o quintal de São Paulo, a favela. No outro dia encontraram o pretinho morto. Os dedos do seu pé abriram. O espaço era de vinte centimetros. Ele aumentou- se como se fosse de borracha. Os dedos do pé parecia leque. Não trazia documentos. Foi sepultado como um Zé qualquer. Ninguém procurou saber seu nome. Marginal não tem nome. De quatro em quatro anos muda-se os políticos e não soluciona a fome, que tem a sua matriz nas favelas e as sucursaes nos lares dos operários. Quando eu fui buscar agua vi uma infeliz caida perto da torneira porque ontem dormiu sem jantar. É que ela está desnutrida. Os médicos que nós temos na política sabem disto. Agora eu vou na casa da Dona Julita trabalhar para ela. Fui catando papel. O senhor Samuel pesou. Recebi 12 cruzeiros. Subi a Avenida Tiradentes catando papel. Cheguei na rua Frei Antonio Santana de Galvão 17, trabalhar para a Dona Julita. Ela disse-me para eu não iludir com os homens que eu posso arranjar outro filho e que os homens não contribui para criar o filho. Sorri e pensei: em relação aos homens, eu tenho experiencias amargas. Já estou na maturidade, quadra que o senso já criou raízes. Achei um cará no lixo, uma batata doce e uma batata solsa (nota 13) Cheguei na favela os meus meninos estavam roendo um pedaço de pão duro. Pensei: para comer estes pães era preciso que eles tivessem dentes eletricos. (nota 13) O correto é salsa, o mesmo que salgada. (N.E.) Não tinha gordura. Puis a carne no fogo com uns tomates que eu catei lá na Fabrica Peixe. Puis o cará e a batata. E agua. Assim que ferveu eu puis o macarrão que os meninos cataram no lixo. Os favelados aos poucos estão convencendo-se que para viver precisam imitar os corvos. Eu não vejo eficiência no Serviço Social cm relação ao favelado. Amanhã não vou ter pão. Vou cozinhar a batata doce. Pagina 30 22 DE MAIO Eu hoje estou triste. Estou nervosa. Não sei se choro ou saio correndo sem parar até cair inconciente. E que hoje amanheceu chovendo. E eu não saí para arranjar dinheiro. Passei o dia escrevendo. Sobrou macarrão, eu vou esquentar para os meninos. Cosinhei as batatas, eles comeram. Tem uns metais e um pouco de ferro que eu vou vender no Seu Manuel. Quando o João chegou da escola eu mandei ele vender os ferros. Recebeu 13 cruzeiros. Comprou um copo de agua mineral, 2 cruzeiros. Zanguei com ele. Onde já se viu favelado com estas finezas? Os meninos come muito pão. Eles gostam de pão mole. Mas quando não tem eles comem pão duro. Duro é o pão que nós comemos. Dura é a cama que dormimos. Dura é a vida do favelado. Oh! São Paulo rainha que ostenta vaidosa a tua coroa de ouro que são os arranha-céus. Que veste viludo e seda e calça meias de algodão que é a favela. O dinheiro não deu para comprar carne, eu fiz macarrão com cenoura. Não tinha gordura, ficou horrivel. A Vera é a única que reclama e pede mais. E pede: - Mamãe, vende eu para a Dona Julita, porque lá tem comida gostosa. Eu sei que existe brasileiros aqui dentro de São Paulo que sofre mais do que eu. Em junho de 1957 eu fiquei doente e percorri as sedes do Serviço Social. Devido eu carregar muito ferro fiquei com dor nos rins. Para não ver os meus filhos passar fome fui pedir auxilio ao propalado Serviço Social. Foi lã que eu vi as lagrimas deslisar dos olhos dos pobres. Como é pungente ver os dramas que ali se desenrola. A ironia com que são tratados os pobres. A unica coisa que eles querem saber são os nomes e os endereços dos pobres. Fui no Palacio, o Palacio mandou-me para a sede na Av. Brigadeiro Luís Antonio. Avenida Brigadeiro me enviou para o Serviço Social da Santa Casa. Falei com a Dona Maria Aparecida que ouviu-me e respondeu-me tantas coisas e não disse nada. Resolvi ir no Palacio e entrei na fila. Falei com o senhor Alcides. Um homem que não é niponico, mas é amarelo como manteiga deteriorada. Falei com o senhor Alcides: - Eu vim aqui pedir um auxilio porque estou doente. O senhor mandou me ir na Avenida Brigadeiro Luis Antonio, eu fui. Avenida Brigadeiro mandou-me ir na Santa Casa. E eu gastei o unico dinheiro que eu tinha com as conduções. Pagina 31 - Prende ela! Não me deixaram sair. E um soldado pois a baioneta no meu peito. Olhei o soldado nos olhos e percebi que ele estava com dó de mim. Disse-lhe: - Eu sou pobre, porisso é que vim aqui. Surgiu o Dr. Osvaldo de Barros, o falso filantrópico de São Paulo que está fantasiado de São Vicente de Paula. E disse: - Chama um carro de preso! 23 DE MAIO Levantei de manhã triste porque estava chovendo. (...) O barraco está numa desordem horrivel. E que eu não tenho sabão para lavar as louças. Digo louça por hábito. Mas é as latas. Se tivesse sabão eu ia lavar as roupas. Eu não sou desmazelada. Se ando suja é devido a reviravolta da vida de um favelado. Cheguei a conclusão que quem não tem de ir pro céu, não adianta olhar para cima. E igual a nós que não gostamos da favela, mas somos obrigados a residir na favela. Fiz a comida. Achei bonito a gordura frigindo na panela. Que espetáculo deslumbrante! As crianças sorrindo vendo a comida ferver nas panelas. Ainda mais quando é arroz e feijão, é um dia de festa para eles. Antigamente era a macarronada o prato mais caro. Agora é o arroz e feijão que suplanta a macarronada. São os novos ricos. Passou para o lado dos fidalgos. Até vocês, feijão e arroz, nos abandona! Vocês que eram os amigos dos marginais, dos favelados, dos indigentes. Vejam só. Até o feijão nos esqueceu. Não está ao alcance dos infelizes que estão no quarto de despejo. Quem não nos despresou foi o fubá. Mas as crianças não gostam de fubá. Quando puis a comida o João sorriu. Comeram e não aludiram a cor negra do feijão. Porque negra é a nossa vida. Negro é tudo que nos rodeia. Nas ruas e casas comerciais já se vê as faixas indicando os nomes dos futuros deputados. Alguns nomes já são conhecidos. Sâo reincidentes que já foram preteridos nas urnas. Mas o povo nâo está interessado nas eleições, que é o cavalo de Troia que aparece de quatro em quatro anos. O céu é belo, digno de contemplar porque as nuvens vagueiam e formam paisagens deslumbrantes. As brisas suaves perpassam conduzindo os perfumes das flores. E o astro rei sempre pontual para despontar-se e recluir-se. As aves percorrem Pagina 32 o espaço demonstrando contentamento. A noite surge as estrelas cintilantes para adornar o céu azul. Há varias coisas belas no mundo que não é possível descrever-se. Só uma coisa nos entristece: os preços, quando vamos fazer compras. Ofusca todas as belezas que existe. A Theresa irmã da Meyri bebeu soda. E sem motivo. Disse que encontrou um bilhete de uma mulher no bolso do seu amado. Perdeu muito sangue. Os médicos diz que se da sarar ficará imprestável. Tem dois filhos, um de 4 anos e outro de 9 meses. 26 DE MAIO Amanheceu chovendo. E eu tenho só 4 cruzeiros, e um pouco de comida que sobrou de ontem e uns ossos. Fui buscar agua para por os ossos ferver. Ainda tem um pouco de macarrão, eu faço uma sopa para os meninos. Vi uma visinha lavando feijão. Fiquei com inveja. (...) Faz duas semanas que eu não lavo roupas por não ter sabão. Vendi umas taboas por 40 cruzeiros. A mulher disse-me que paga hoje. Se ela pagar eu compro sabão. ...Ha dias que não vinha policia aqui na favela, e hoje veio, porque o Julião deu no pai. Deu-lhe uma cacetada com tanta violência, que o velho chorou e foi chamar a policia. 27 DE MAIO ...Percebi que no Frigorifico jogam creolina no lixo, para o favelado não catar a carne para comer. Não tomei café, ia andando meio tonta. A tontura da fome é pior do que a do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrivel ter só ar dentro do estomago. Comecei sentir a boca amarga. Pensei: já não basta as amarguras da vida? Parece que quando eu nasci o destino, marcou-me para passar fome. Catei um saco de papel. Quando eu penetrei na rua Paulino Guimarães, uma senhora me deu uns jornais. Eram limpos, eu deixei e fui para o deposito. Ia catando tudo que encontrava. Ferro, lata, carvão, tudo serve para o favelado. O Leon pegou o papel, recibi seis cruzeiros. Pensei guardar o dinheiro para comprar feijão. Mas, vi que não podia porque o meu estômago reclamava e torturava-me. Resolvi tomar uma media e comprar um pão. Que efeito surpreendente faz a Pagina 33 comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as arvores, as aves tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos. A comida no estomago é como o combustível nas maquinas. Passei a trabalhar mais depressa. O meu corpo deixou de pesar. Comecei andar mais depressa. Eu tinha impressão que eu des- lisava no espaço. Comecei sorrir como se estivesse presenciando um lindo espetáculo. E haverá espetáculo mais lindo do que ter o que comer? Parece que eu estava comendo pela primeira vez na minha vida. ...Chegou a Radio Patrulha, que veio trazer dois negrinhos que estavam vagando na Estação da Luz. 4 e 6 anos. É facil perceber que eles são da favela. São os mais maltrapilhos da cidade. O que vão encontrando pelas ruas vão comendo. Cascas de banana, casca de melancia e até casca de abacaxi, que é tão rústica, eles trituram. (...) Estavam com os bolsos cheios de moedas de alumínio, o novo dinheiro em circulação. 28 DE MAIO Amanheceu chovendo. Tenho só treis cruzeiros porque emprestei 5 para Leila ir buscar a filha no hospital. Estou desorientada, sem saber o que iniciar. Quero escrever, quero trabalhar, quero lavar roupa. Estou com frio. E não tenho sapato para calçar. Os sapatos dos meninos estão furados. ...E o pior na favela é o que as crianças presenciam. Todas crianças da favela sabem como é o corpo de uma mulher. Porque quando os casais que se embriagam brigam, a mulher, para não apanhar sai nua para a rua. Quando começa as brigas os favelados deixam seus afazeres para presenciar os bate-fundos. De modo que quando a mulher sai correndo nua é um verdadeiro espetáculo para o Zé Povinho. Depois começam os comentários entre as crianças: - A Fernanda saiu nua quando o Armim estava lhe batendo. - Eu não vi. Ah! Que pena! - E que jeito é a mulher nua? E o outro para citar-lhe aproxima-lhe a boca do ouvido. E ecoa-se as gargalhadas estrepitosas. Tudo que é obseno pornográfico o favelado aprende com rapidez. Tem barracões de meretrizes que praticam suas cenas amorosas na presença das crianças. .Os visinhos ricos de alvenaria dizem que nós somos protegidos pelos politicos. E engano. Os políticos só aparece aqui no quarto de despejo, nas épocas eleitorais. Este Pagina 34 ano já tivemos a visita do candidato a deputado Dr. Paulo de Campos Moura, que nos deu feijão e otimos cobertores. Que chegou numa epoca oportuna, antes do frio. O que eu quero esclarecer sobre as pessoas que residem na favela é o seguinte: quem tira proveito aqui são os nortistas. Que trabalham e não dissipam. Compram casa ou retornam-se ao Norte. Aqui na favela há os que fazem barracões para residir e os que fazem para alugar. E os alugueis são 500 a 700,00. E os que fazem barracões para vender. Gasta 4 mil cruzeiros e vendem por 11 mil cruzeiros. Quem fez muitos barracões para vender foi o Tiburcio. 29 DE MAIO Até que enfim parou de chover. As nuvens des- lisa-se para o poente. Apenas o frio nos fustiga. E varias pessoas da favela não tem agasalhos. Quando uns tem sapatos, não tem palitol. E eu fico condoida vendo as crianças pisar na lama. (...) Percebi que chegaram novas pessoas para a favela. Estão maltrapilhas e as faces desnutridas. Improvisaram um barracão. Condoí-me de ver tantas agruras reservadas aos proletários. Fitei a nova companheira de infortúnio. Ela olhava a favela, suas lamas e suas crianças paupérrimas. Foi o olhar mais triste que eu já presenciei. Talvez ela não mais tem ilusão. Entregou sua vida aos cuidados da vida. Há de existir alguém que lendo o que eu escrevo dirá... isto é mentira! Mas, as misérias são reais. O que eu revolto é contra a ganancia dos homens que espremem uns aos outros como se espremesse uma laranja. 30 DE MAIO ...Troquei a Vera e saímos, la pensando: será que Deus vai ter pena de mim? Será que eu arranjo dinheiro hoje? Será que Deus sabe que existe as favelas e que os favelados passam fome? ...O José Carlos chegou com uma sacola de biscoitos que catou no lixo. Quando eu vejo eles comendo as coisas do lixo penso: E se tiver veneno? E que as crianças não suporta a fome. Os biscoitos estavam gostosos. Eu comi pensando naquele provérbio: quem entra na dança deve dançar. E como eu também tenho fome, devo comer. Chegaram novas pessoas para a favela. Estão esfarrapadas, andar curvado e os olhos fitos no solo como se pensasse na sua desdita por residir num lugar sem Pagina 35 atração. Um lugar que não se pode plantar uma flor para aspirar o seu perfume, para ouvir o zumbido das abelhas ou o colibri acariciando-a com seu frágil biqui- nho. O unico perfume que exala na favela é a lama podre, os excrementos e a pinga. ...Hoje ninguém vai dormir porque os favelados que não trabalham já estão começando a fazer batucada. Lata, frigideira, panelas, tudo serve para acompanhar o cantar desafinado dos notívagos. 31 DE MAIO Sabado o dia que quase fico louca porque preciso arranjar o que comer para sabado e o domingo. (...) Fiz o café, e os pães que eu ganhei ontem. Puis feijão no fogo. Quando eu lavava o feijão pensava: eu hoje estou parecendo gente bem - vou cozinhar feijão. Parece até um sonho! Ganhei bananas e mandiocas na quitanda da rua Guapo- ré. Quando eu voltava para a favela, na Avenida Cruzeiro do Sul 728 uma senhora pediu-me para eu ir jogar um cachorro morto dentro do Tietê que ela dava-me 5 cruzeiros. Deixei a Vera com a mulher e fui. O cachorro estava dentro de um saco. A mulher ficou observando os meus passos à paulistana. Quer dizer andar depressa. Quando voltei ela deu-me,6 cruzeiros. Quando recebi os 6 cruzeiros pensei: já dá para comprar um sabão. Cheguei na favela: eu não acho geito de dizer cheguei em casa. Casa é casa. Barracão é barracão. O barraco tanto no interior como no exterior estava sujo. E aquela desordem aborreceu- me. Fitei o quintal, o lixo podre exalava mau cheiro. Só aos domingos que eu tenho tempo de limpar. Eu havia comprado um ovo e 15 cruzeiros de banha no Seu Eduardo. E fritei o ovo para ver se parava as nauseas. Parou. Percebi que era fraquesa. O medico mandou-me comer oleo mas eu lllo posso comprar. (...) Fui fazendo o jantar. Arroz, feijão, pimentão e choriço e mandioca frita. Quando a Vera viu tanta coisa disse: hoje é festa de negro! Perguntei a uma senhora que vi pela primeira vez: -- A senhora está morando aqui? - Estou. Mas faz de conta que não estou, porque eu tenho muito nojo daqui. Isto aqui é lugar para os porcos. Mas se puzes- srm os porcos aqui, haviam de protestar e fazer greve. Eu sempre ouvi falar na favela, mas não pensava que era um lugar tão asqueroso assim. Só mesmo Deus para ter dó de nós. Pagina 36 7 DE JUNHO É o inicio do mês. É o ano que deslisa. E a gente vendo os amigos morrer e outros nascer. (...) E treis e meia da manhã. Não posso durmir. Chegou o tal Vitor, o homem mais feio da favela. O representante do bicho papão. Tão feio, e tem duas mulheres. Ambas vivem juntas no mesmo barraco. Quando ele veio residir na favela veio demonstrando valentia. Dizia: - Eu fui vacinado com o sangue do Lampeão (nota 14). Dia 1 de janeiro de 1958 ele disse-me que ia quebrar-me a cara. Mas eu lhe ensinei que a é a e b è b. Ele é de ferro e eu sou de aço. Não tenho força física, mas as minhas palavras ferem mais do que espada. E as feridas são incicatrisaveis. Ele deixou de aborrecer-me porque eu chamei a radio patrulha para ele, e ele ficou 4 horas detido. Quando ele saiu andou dizendo que ia matar-me. Hntão o Adalberto disse-lhe: - E o pior negocio que você vai fazer. Porque se você não matá-ía ela é quem te mata. Eu tenho uma habilidade que não vou relatar aqui, porque isto há de defender-me. Quem vive na favela deve procurar isolar-se, viver só. O Vitor está tocando radio. Penso: hoje é domingo e nós podiamos dormir até as 8. Mas aqui não há consideração mutua. Eu nada tenho que dizer da minha saudosa mãe. Ela era muito boa. Queria que eu estudasse para professora. Foi as conti- gencias da vida que lhe impossibilitou concretizar o seu sonho. Mas ela formou o meu carater, ensinando-me a gostar dos humildes e dos fracos. (nota 14) Referência ao famoso cangaceiro que com seu bando dominou várias cidades nordestinas, saqueando o comércio e atacando fazendas no inicio do século. (N.E) É porisso que eu tenho dó dos favelados. Se bem que aqui tem pessoas dignas de despreso, pessoas de espirito perverso. Esta noite a Dona Amélia e o seu companheiro brigaram. Ela disse-lhe que ele está com ela por causa do dinheiro que ela lhe dá. Só se ouvia a voz de Dona Amélia que demonstrava prazer na polemica. Ela teve vários filhos. Distribuio todos. Tem dois filhos moços que ela não os quer em casa. Pretere os filhos e prefere os homens. O homem entra pela porta. O filho é raiz do coração. É quatro horas. Eu já fiz o almoço hoje foi almoço. Tinha arroz, feijão e repolho e linguiça. Quando eu faço quatro pratos penso que sou alguém. Quando vejo meus Pagina 37 filhos comendo arroz e feijão, o alimento que não está ao alcance do favelado, fico sorrindo atoa. Como se eu estivesse assistindo um espetáculo deslumbrante. Lavei as roupas e o barracão. Agora vou ler e escrever. Vejo os jovens jogando bola. E eles correm pelo campo demonstrando energia. Penso: se eles tomassem leite puro e comessem carne... 2 DE JUNHO Amanheceu fazendo frio. Acendi o fogo e mandei o João ir comprar pão e café. O pão, o Chico do Mercadinho cortou um pedaço. Eu chinguei o Chico de ordinário, cachorro, eu queria ser um raio para cortar-lhe em mil pedaços. O pão não deu e os meninos não levaram lanche. ...De manhã eu estou sempre nervosa. Com medo de não arranjar dinheiro para comprar o que comer. Mas hoje é segunda- feira e tem muito papel na rua. (...) O senhor Manuel apareceu dizendo que quer casar-se comigo. Mas eu não quero porque já estou na maturidade. E depois, um homem não há de gostar de uma mulher que não pode passar sem ler. E que levanta para escrever. E que deita com lapis e papel debaixo do travesseiro. Por isso é que eu prefiro viver só para o meu ideal. Ele deu-me 50 cruzeiros e eu paguei a costureira. Um vestido que fez para a Vera. A Dona Alice veiu queixar-se que o senhor Alexandre estava lhe insultando por causa de 65 cruzeiros. Pensei: ah! o dinheiro! Que faz morte, que faz odio criar raiz. 3 DE JUNHO Quando eu estava no ponto do bonde a Vera começou a chorar. Queria pasteis. Eu estava só com 10 cruzeiros, 2 para pagar o bonde e 8 para comprar carne moida. A Dona Geralda deu-me 4 cruzeiros para eu comprar os pasteis, ela comia e cantava. E eu pensava: o meu dilema é sempre a comida! Tomei o bonde. A Vera começou a chorar porque não queria ir cm pé e não tinha lugar para sentar. Quando eu estou com pouco dinheiro procuro não pensar lios filhos que vão pedir pão, pão, café. Desvio meu pensamento para o céu. Penso: será que lá em cima tem habitantes? Será que eles são melhores do que nós? Será que o predomínio de lá suplanta o nosso? Será que as nações de lá é variada igual aqui na terra? Ou é uma nação unica? Será que lá existe favela? E se lá existe favela será que quando eu morrer Pagina 38 eu vou morar na favela? ...Quando eu comecei escrever ouvi vozes alteradas. Faz tanto tempo que não há briga na favela. (...) Era a Odete e o seu esposo que estão separados. Brigavam porque ele trouxe outra mulher no carro que ele trabalha. Elas estavam na casa do Seu Francisco irmão do Alcino. Sairam para a rua. Eu fui ver a briga. Agrediram a mulher que estava com o Alcino. Quatro mulheres e um menino avançaram na mulher com tanto violência e lhe jogaram no solo. A Marli saiu. Disse que ia buscar uma pedra para jogar na cabeça da mulher. Eu puis a mulher no carro e o Alcino e mandei eles ir-se embora. Pensei em ir chamar a Policia. Mas até a Politica chegar elas matavam a mulher. O Alcino deu uns tapas na Brigra. que é a pior agitadora. Se eu não entro para auxiliar o Alci- Ito ele ia levar desvantagem. As mulheres da favela são horríveis numa briga. O que podem resolver com palavras elas transformam em conflito. Parecem corvos, numa disputa. A Odete revoltou-se comigo por ter defendido o Alcino. Eu disse: - Você tem quatro filhos para criar. - Eu não me importo. Eu queria era matá-la. Quando eu empurrava a mulher para dentro do carro, ela disse-me: - Só a senhora é que é boa. Eu tinha a impressão que estava retirando um pedaço de osso da boca dos cachorros. E a Odete vendo o seu esposo sair com a outra no carro, ficou furiosa. Vieram chingar-me de entrometida eu penso que a violência não resolve nada. (...) Assembleia dr (avelados é com paus, faças, pedradas e violências. A favela é o quarto das surpresas. Esta é a quinta mulher que o Alcino traz aqui na favela. E a sua esposa quando vê, briga. A favela hoje está quente. Durante o dia a Leila e o seu companheiro Arnaldo brigaram. O Arnaldo é preto. Quando veio para a favela era menino. Mas que menino! Era bom, iducado, meigo, obidiente. Era o orgulho do pai e de quem lhe conhecia. - Este vai ser um negro, sim senhor! E que na África os negros são classificados assim: - Negro tú. Pagina 39 - Negro turututú. - É negro sim senhor! Negro tú é o negro mais ou menos. Negro turututú é o que não vale nada. E o negro Sim Senhor é o da alta sociedade. Mas o Arnaldo transformou-se em negro turututú depois que cresceu. Ficou estúpido, pornográfico, obceno e alcoólatra . Não sei como é que uma pessoa pode desfazer-se assim. Ele é compadre da Dona Domingas. Mas que compadre! Dona Domingas é uma preta boa igual ao pão. Calma e util. Quando a Leila ficou sem casa foi morar com a Dona Domingas. A Dona Domingas era quem lavava a roupa da Leila, que lhe obrigou a dormir no chão e lhe dar o leito. Passou a ser a dona da casa. Eu dizia: - Reage, Domingas! - Ela é feiticeira, pode botar um feitiço em mim. - Mas o feitiço não existe. - Existe sim. Eu vi ela fazê. E porque a Leila andava dizendo que consertava vidas. E eu vi varias senhoras ricas aparecer por aqui. Havia a tal Dona Guiomar, Edviges Gonçalves, a mulher que tem vários nomes e varias residências porque compra a prestação e não paga e dá o nome trocado onde compra. Quando sai na rua parece a Maria Antoníeta. E a Dona Guiomar concorreu para escravisar a Dona Domingas. (...) A Dona Domingas recebe uma pensão do seu extinto esposo. E era obrigada a dar dinheiro para a Leila que é companheira do Arnaldo. Ele sendo compadre da Domingas, era para defender a comadre. Mas ele explorava. Dividia o dinheiro entre os dois. E ainda praticava suas cenas amorosas perto do afilhado. A Dona Domingas saiu de casa. Foi para Carapicuiba, morar com Dona Iracema. Ficou o seu filho Nikon. Eu fiz tudo para retirar o menino. Mas a Leila lhe dizia: - Eu sou feiticeira. Se você for embora eu faço você virar um elefante. Eu encontrava o Nikon: - Bom dia, Nilton. Você não quer ir com a tua mãe? - Eu não vou porque a Leila disse-me que ela é feiticeira e se eu for embora ela vai fazer eu virar um elefante e o elefante é íim bicho muito muito feio. Sabe, Dona Pagina 40 Carolina, e se ela fazer cu virar um porco? Eu tenho que comer lavagem e alguém há de querer me por num chiqueiro para eu engordar. Vão me capar. E Se ela fazer eu virar um cavalo, alguém há de me por para puchar uma carroça e ainda me dá chicotada. Quando o Nilton começou passar fome, foi com a mãe. Pensei. A fome também serve de juiz. Um dia eu discutia com a Leila. Ela e o Arnaldo puzeram fogo no meu barracão. Os vizinhos apagaram. 5 DE JUNHO ...Mas eu já observei os nossos políticos. Para obscrvá-los fui na Assembleia. A sucursal do Purgatório, porque .a matriz é a sede do Serviço Social, no palacio do Governo. Foi lá que eu vi ranger de dentes. Vi os pobres sair chorando. E as lagrimas dos pobres comove os poetas. Não comove os poetas de salão Mas os poetas do lixo, os idealistas das favelas, um expectador que assiste e observa as trajedias que os politicos representam relação ao povo. 6 DE JUNHO ...O José Carlos faz dias que não para em caiu Quando chega para dormir é dez e meia da noite. Hoje de irninhá ele apanhou. Avisei-lhe que se chegar as 10 da noite não •liiu a porta. (...) Comprei um pão as 2 horas. E 5 horas, fui partir um pedaço já está duro (...) O pão atual fez uma dupla com õ i nrai,.io dos politicos. Duro, diante do clamor publico. . . . Hoje brigaram aqui na favela. Brigaram por causa de um hoiro. A briga foi com uns baianos (nota 15) que só falavam em peixeiras. (nota 15) termo baianos refere-se aqui aos nordestinos em gerai. Com esse Hwno sentido a autora usa também a palavra nortista. (N.E.I 7 DE JUNHO Os meninos tomaram café e foram a aula. Eles estão alegres porque hoje teve café. Só quem passa fome é que dá valor a comida. Eu e a Vera fomos catar papel. Passei no Frigorifico para pegar linguiça. Contei 9 mulheres na fila. Eu tenho a mania de observar tudo, contar tudo, marcar os fatos. Pagina 41 Encontrei muito papel nas ruas. Ganhei 20 cruzeiros. Fui no bar tomar uma media. Uma para mim e outra para a Vera. Gastei 11 cruzeiros. Fiquei catando papel até as 11 e meia. Ganhei 50 cruzeiros. Quando eu era menina o meu sonho era ser homem para defender o Brasil porque eu lia a Historia do Brasil e ficava sabendo que existia guerra. Só lia os nomes masculinos como defensor da patria. Então eu dizia para a minha mãe: - Porque a senhora não faz eu virar homem? Ela dizia: - Se você passar por debaixo do arco-iris você vira homem. Quando o arco-iris surgia eu ia correndo na sua direção. Mas o arco-iris estava sempre distanciando. Igual os politicos distante do povo. Eu cançava e sentava. Depois começava a chorar. Mas o povo não deve cançar. Não deve chorar. Deve lutar para melhorar o Brasil para os nossos filhos não sofrer o que estamos sofrendo. Eu voltava e dizia para a mamãe: - O arco-iris foge de mim. Nós somos pobres, viemos para as margens do rio. As margens do rio são os lugares do lixo e dos marginais. Gente da favela é considerado marginais. Não mais se vê os corvos voando as margens do rio, peno dos lixos. Os homens desempregados substituíram os corvos. Quando eu fui catar papel encontrei um preto. Estava rasgado e sujo que dava pena. Nos seus trajes rotos ele podia representar-se como diretor do sindicato dos miseráveis. O seu olhar era um olhar angustiado como se olhasse o mundo com despreso. Indigno para um ser humano. Estava comendo uns doces que a fabrica havia jogado na lama. Ele limpava o barro e comia os doces. Não estava embriagado, mas vacilava no andar. Cambaleava. Estava tonto de fome! ...Encontrei com ele outra vez, peno do deposito e disse-lhe: - O senhor espera que eu vou vender este papel e dou-te cinco cruzeiros para o senhor tomar uma media. É bom beber um cafezinho de manhã. - Eu não quero. A senhora cata estes papeis com tantas dificuldades para manter os teus filhos e deve receber uma migalha c ainda quer dividir comigo. Este serviço que a senhora faz é serviço de cavalo. Eu já sei o que vou fazer da minha vida. Daqui uns dias eu não vou precisar de mais nada deste mundo. Eu não pude viver nas Pagina 42 fazendas. Os fazendeiros me explorava muito. Eu não posso trabalhar na cidade porque aqui tudo é a dinheiro e eu não encontro emprego porque já sou idoso. Eu sei que eu vou morrer porque a fome é a pior das enfermidades. O homem parou de falar bruscamente. Eu segui com o meu saco de papel nas costas. Tem pessoas que aos sabados vão dançar. Eu não danço. Aiho bobagem ficar rodando pra aqui, pra ali. Eu já rodo tanto para arranjar dinheiro para comer. Procurei a Vera, não encontrei. Gritei, não apareceu. Fui na 1'urtuguesa de Desportos. Já está iniciando os festejos juninos. Eia não estava lá. Fui no ponto de bonde treis vezes. Eu já estava pensando ir no Juizado de Menores, ia gastar o dinheiro reservado para o pão. Quando cheguei na favela para pegar os documen- tos, para eu ir na cidade, a Vera estava procurando-me. Disse-me que estava procurando balões. E que estava cançada de correr. 8 DE JUNHO ...Hoje eu fiz almoço. Quando tem carne... fu fito mais animada. Mas, quando é polenta eu já sei que vou ter complicações com as crianças. Feijão, arroz e pasteis. Já faz tempo que os meninos estão pedindo pasteis. O João está sorrindo atoa. O pasteis é um acontecimento aqui em casa. Quando eu digo casa, penso que estou ofendendo as casas de tijolos. Hoje os favelados estão apreciando os briguentos. São dois irmãos. O Vicente e o João Coque. Lã em frente ao mercadinho estão brigando dois baianos, e são irmãos. Nem parece que geraram no mesmo ventre. Os visinhos de alvenaria olha os favelados com repugnancia. Percebo seus olhares de odio porque eles não quer a favela qui Que a favela deturpou o bairro. Que tem nojo da pobresa. I biquei cm eles que na morte todos ficam pobres. O que eu sei é que a praga dos favelados pega. Quando nós mudamos para a favela, nós iamos pedir agua nos visinhos de alvenaria. Quem nos dava agua era a Dona Ida Cardoso. Treis vezes ela nos deu agua. Ela nos disse que nos dava agua só nos dias uteis. Aos domingos ela queria dormir aré mais tarde. Mas o favelado não é burro. Mas foi vacinado com sangue de burro. Um dia foram buscar agua e não encontraram a torneira do jardim, onde os favelados pegava agua. Formou-se uma fila na porta da Dona Ida. E todas chamavam: Pagina 43 - Eu queria agua para fazer a mamadeira. Meu Deus, como é que nós vamos fazer sem agua? Nois iamos noutras casas, batíamos na porta. Ninguém respondia. Não aparecia ninguém para nos atender, para não ouvir isto: - A senhora pode nos dar um pouco dagua? Eu carregava agua da rua Guaporé. Do deposito de papel. Outros trazia agua do Serviço, nos garrafões. Uma tarde de terça-feira. A sogra de Dona Ida estava sentada e disse: - Podia dar uma enchente e arrazar a favela e matar estes pobres cacetes. Tem hora que eu revolto contra Deus por ter posto gente pobre no mundo, que só serve para amolar os outros. A Tina da Dona Mulata, quando soube que a sogra da Dona Ida pedia a Deus para enviar uma enchente para matar os pobres favelados, disse: - Quem há de morrer afogado há de ser ela! Na enchente de 49 morreu o Pedro Cardoso, filho de Dona Ida. Quando eu soube que o Pedrinho havia morrido afogado pensei na decepção que teve a sua avó que pedia agua, agua, bastante agua para matar os favelados e veio agua e matou-lhe o neto. E para ela compreender que Deus é sobrio. E o advogado dos humildes. Os pobres são criaturas de Deus. E o dinheiro é um metal criado e valorisado pelo homem. (...) Se Deus avisasse a Dona Ida que ela por não nos dar agua ia perder o seu filho para sempre, creio que ela estaria nos dando agua até hoje. O Pedro pagou em holocausto o orgulho de sua avó. E a maldade de sua mãe. E assim que Deus repreende. 9 DE JUNHO ...Eu saí. Quando eu estava catando papel em frente a Bela Vista eu tive um aviso que eu ia ter aborrecimen to. Fiquei triste. Quando eu passava na rua Pedro Vicente um senhor deu uma bichiga de borracha para a Vera. Ela ficou contente e disse que eie ia para o céu. ...Quando nasceu a Vera eu fiquei sosinha aqui na favela. Não apareceu uma mulher para lavar minhas roupas, olhar os meus filhos. Os meus filhos dormiam sujos. Eu fiquei na cama pensando nos filhos, com medo deles ir brincar nas margens do rio. Depois do parto a mulher não tem forças para erguer um braço. Depois do parto eu Pagina 44 fiquei numa posição incomoda. Até quando Deus deu-me forças para ajeitar-me. .. .Eu já estava deitada quando ouvi as vozes das crianças anunciando que estavam passando cinema na rua. Não acreditei no que ouvia. Resolvi ir ver. Era a Secretaria da Saude. Veio passar um filme para os favelados ver como é que o caramujo transmite a doença anémica (nota 16). Para não usar as aguas do rio. Que as larvas desenvolve-se nas aguas. (...) Até a agua... que em vez de nos auxiliar, nos contamina. Nem o ar que respiramos, não é puro, porque jogam lixo aqui na favela. Mandaram os favelados fazer mictorios. 11 DE JUNHO ...Já faz seis meses que eu não pago a agua. 25 cruzeiros por mês. E por falar na agua, o que eu não gosto e tenho pavor é de ir buscar agua. Quando as mulheres aglomeram na torneira, enquanto esperam a sua vez para encher a lata vai falando de tudo e de todos. Se uma mulher está engordando, elas dizem que está gravida. Se está emagrecendo elas dizem que está tuberculosa. Temos aqui a Dona Binidita que está com 82 anos. Começou engordar... - É filho! A Dona Benidita está gravida. - Não diga! Naquela idade? - Isto é o fim do mundo! - De quantos meses? Seis, sete, a data que vinha na mente. E quando alguém ia levar roupinhas para a Dona Binidita ela chingava e rogava praga. Dizia: (nota 16) Referência à esquistossomose, doença parasitária que provoca diarreias e aumento do fígado e do baço. (N.E.J - Eu sou mãe da que já saiu da circulação. Como é que eu posso ter filho? Eu já estou aposentada. Quando eu ouvia os rumores pensava: quem teve filhos nesta idade foi só Santa Isabel, mãe de São João Batista. Todos os dias hã uma novidade aqui na favela. Quando inaugurou a Purtuguesa de Desportos os purtugueses que reside aqui por perto foram. E a Dona Isaltina esqueceu umas roupas no quintal. No outro dia não encontrou as roupas. A Dona Sebastiana Pagina 45 disse para a Dona Isaltina que a ladra era a Leila. A Dona Isaltina foi chamar a Radio Patrulha. E ela interrogava a Leila com tanta energia que acabou descobrindo as roupas no fosso de excrementos. Pegaram um pau e retiraram as roupas. E a policia obrigou a Leila lavar. Um carro da Prefeitura que vinha trazer agua jogava agua e a Leila lavava. Ela dizia. - Não fui eu quem tirou as roupas. Eu sou vagabunda, mas não sou ladra. O povo da favela sempre achava tempo para presenciar estes espetáculos. (...) O juiz pegou uma jovem debil mental. Disseram que ela havia fugido com um japonês. Hoje ela apareceu e disse ser mentira. Eu fui na Dona Julita. Ela deu-me café, sabão e pão. Na Avenida do Estado 1140 ganhei muito papel. Recebi 98 cruzeiros. Deu para comprar oleo, carne e açúcar. Ganhei umas bananas, fiz doce. O José Carlos está mais calmo depois que botou os vermes, 21 vermes. 12 DE JUNHO Eu deixei o leito as 3 da manhã porque quando a gente perde o sono começa pensar nas misérias que nos rodeia. (...) Deixei o leito para escrever. Enquanto escrevo vou pensando que resido num castelo cor de ouro que reluz na luz do sol. Que as janelas são de prata e as luzes de brilhantes. Que a minha vista circula no jardim e eu contemplo as flores de todas as qualidades. (...) É preciso criar este ambiente de fantasia, para esquecer que estou na favela. Fiz o café e fui carregar agua. Olhei o céu, a estrela Dalva já estava no céu. Como é horrivel pisar na lama. As horas que sou feliz é quando estou residindo nos castelos imaginários. O tal Valdemar hoje agrediu o senhor Alexandre com uma enxada. As mulheres interviram. Eu fico admirada do senhor Alexandre temer o Valdemar. Porque as mulheres resulutas da favela expancam o Valdemar com vassouras e chinelos. Mas, quando alguém lhe teme, ele prevalece. 13 DE JUNHO Vesti as crianças e eles foram para a escola. Eu fui catar papel. No Frigorifico vi uma mocinha comendo salchi- chas do lixo. - Você pode arranjar um emprego e levar uma vida reajustada. Ela perguntou-me se catar papel ganha dinheiro. Afirmei que sim. Ela disse-me Pagina 46 que quer um serviço para andar bem bonita. Ela está com 15 anos. Epoca que achamos o mundo maravilhoso. Epoca em que a rosa desabrocha. Depois vai caindo pétala por pétala e surgem os espinhos. Uns cançam da vida, suicidam. Outros passam a roubar. (...) Olhei o rosto da mocinha. Está com boqueira. ...Os preços aumentam igual as ondas do mar. Cada qual mais forte. Quem luta com as ondas? Só os tubarões. Mas o tubarão mais feroz é o racional. E o terrestre. E o atacadista. A lentilha está a 100 cruzeiros o quilo. Um fato que alegrou- me imensamente. Eu dancei, cantei e pulei. E agradeci o rei dos juizes que é Deus. Foi em janeiro quando as aguas invadiu os armazéns e estragou os alimentos. Bem feito. Em vez de vender barato, guarda esperando alta de preços: Vi os homens jogar sacos de arroz dentro do rio. Bacalhau, queijo, doces. Fiquei com inveja dos peixes que não trabalham e passam bem. Hoje eu estou lendo. E li o crime do Deputado de Recife, Nei Maranhão. (nota 17) (...) li o jornal para as mulheres da favela ouvir. Elas ficaram revoltadas e começaram chingar o assassino. E lhe rogar praga. Eu já observei que as pragas dos favelados pegam. ...Os bons eu enalteço, os maus eu critico. Devo reservar as palavras suaves para os operários, para os mendigos, que são escravos da miséria. (nota 17) Referência ao incidente ocorrido no cais de Santa Rita (PE), en volvendo o deputado Ney Maranhão, que, durante uma discussão, acabou matando um homem. (N.E.J 14 DE JUNHO .. .Está chovendo. Eu não posso ir catar papel. () dia que chove eu sou mendiga. Jã ando mesmo trapuda e suja. Já uso o uniforme dos indigentes. E hoje é sabado. Os favelados são considerados mendigos. Vou aproveitar a deixa. A Vera não vai sair comigo porque está chovendo. (...) Ageitei um guarda-chuva velho que achei no lixo e saí. Fui no Frigorifico, ganhei uns ossos. já serve. Faço uma sopa, já que a barriga não fica vazia, tentei viver com ar. Comecei desmaiar. Então eu resolvi trabalhar por que eu não quero desistir da vida. Quero ver como é que eu vou morrer. Ninguém deve alimen tar a ideia de suicídio. Mas hoje em dia os que vivem até chegar a hora da morte, é Pagina 47 um heroi. Porque quem não é forte desanima. ...Vi uma senhora reclamar que ganhou só ossos no Frigorifico e que os ossos estavam limpos. - E eu gosto tanto de carne. Fiquei nervosa ouvindo a mulher lamentar-se porque é duro a gente vir ao mundo e não poder nem comer. Pelo que observo, Deus é o rei dos sábios. Ele pois os homens e os animais no mundo. Mas os animais quem lhes alimenta é a Natureza porque os animais fossem alimentados igual aos homens, havia de sofrer muito. Eu penso isto, porque quando eu não tenho nada pa- comer, invejo os animais. Enquanto eu esperava na fila para ganhar bolachas ia ou- Hndo as mulheres lamentar-se. Outra mulher reclamava que passou numa casa e pediu uma esmola. A dona da casa mandou esperar (...) A mulher continuou dizendo que a dona da casa surgiu (on) um embrulho e deu-lhe. Ela não quiz abrir o embrulho perto das colegas, com receio que elas pedissem. Começou pensar. sera um pedaço de queijo? Será carne? Quando ela chegou em casa a primeira coisa que fez, foi desfazer o embrulho porque a curiosidade é amiga das mulheres. Quando desfez o embrulho viu Hic eram ratos mortos. Tem pessoas que zombam dos que pedem. Na fabrica de bolacha o homem disse que não ia dar mais bolacha. Mas as mulheres continuaram quietas. E a fila estava au- Brntando. Quando chegava alguém para comprar, ele explicava: - O senhor desculpe o aspecto hediondo que este povo dá Ri> porta da fabrica. Mas por infelicidade minha todos os sabados É este inferno. Eu ficava impaciente porque queria ouvir o que o dono da fabrica dizia. E queria ouvir o que as mulheres dizia. Que dilema triste para quem presencia. As pobres querendo ganhar. E o rico não queria dar. Ele dá só os pedaços de bolacha. E elas saem contentes como se fossem a Rainha Elisabethe da Inglaterra quando recebeu os treze milhões em joias que o presidente Kubstchek lhe enviou como presente de aniversario. O dono da fabrica vendo que elas não iam embora, mandou dar. A empregada nos dava e dizia: Pagina 48 - Quem ganhar deve ir-se embora. Eles alegam que não estão em condições de dar esmola porque a farinha de trigo subiu muito. Mas os mendigos já estão habituados a ganhar as bolachas todos os sabados. Não ganhei bolacha e fui na feira, catar verduras. Encontrei com a dona Maria do José Bento e começamos a falar sobre o custo de vida. 15 DE JUNHO ...Fui comprar carne, pão e sabão. Parei na banca de jornaes. Li que uma senhora e três filho havia suicidado por encontrar dificuldade de viver. (...) A mulher que suicidou- se não tinha alma de favelado, que quando tem fome recorre ao lixo, cata verduras nas feiras, pedem esmola e assim vão vivendo. (...) Pobre mulher! Quem sabe se de há muito ela vem pensando em eliminar-se, porque as mães tem muito dó dos filhos. Mas é uma vergonha para uma nação. Uma pessoa matar-se porque passa fome. E a pior coisa para uma mãe é ouvir esta sinfonia: - Mamãe eu quero pão! Mamãe, eu estou com fome! Penso: será que ela procurou a Legião Brasileira ou Serviço Social? Ela devia ir nos palacios falar com os manda chuva. A noticia do jornal deixou-me nervosa. Passei o dia chin- gando os politicos, porque eu também quando não tenho nada para dar aos meus filhos fico quase louca. Aqui na favela tem um quadro de foot-bol - O Rubro Negro. As camisas são pretas e vermelhas. O fundador é o Almir Castilho. O quadro não é conhecido pelo publico, mas já é conhecido pela policia. A dois anos atrás, o quadro foi jogar na Penha e brigaram com o quadro adversário e a briga transformou-se em conflito. Com a intervenção da policia os briguentos renderam-se. E havia um morto e vários feridos. Não houve prisões. Mas abriram inquérito. Cada um teve que pagar dois mil cruzeiros ao advogado. Hoje teve uma briga. Na rua A residem 10 baianos num barracão de 3 por dois e meio. Cinco são irmãos. E as outras cinco são irmãs. São robustos, mal incarados. Homens que havia de icr valor para o Lampeão. Os dez são pernambucanos. E brigaram os dez com um paraibano. (...) Quando os pernambucanos avançaram no paraibano as mulheres abraçaram o paraibano e levaram para dentro do barracão e fecharam a porta. Os pernambucanos fitaram falando que matavam e repicavam o Pagina 49 paraibano. Queriam invadir o barracão. Estavam furiosos igual os cães quando alguém lhes retira a cadela. ...Ela teve seis filhos: 3 do Manolo, e três de outros. Ela teve um menino que podia estar com 4 anos. Mas um dia eles embriagaram, e brigaram e lutaram dentro de casa. A luta foi tremenda. O barraco oscilava. E as panelas caiam fazendo ruidos. Na con- fusão, o menino caiu no assoalho e pisaram-lhe em cima. Passado uns dias perceberam que o menino estava todo quebrado. Leva- tam para o Hospital das Clinicas. Engessaram o menino. Mas os B*os não ligaram. O menino morreu. Agora ela está com duas meninas. Uma de dois anos, e ou- "fl rccem-nascida. O seu companheiro atual bebe e brigam. E as BBtcs rolam no assoalho. Quando eu vejo estas cenas fico pensan- Ho no menino que morreu. ...Tinha um soldado que aparecia por aqui. Ele procurava Bgradar-me. E eu, fugia dele. Caí na asneira de dizer para a Leila qu" aihava o soldado muito bonito, mas não queria nada com ele poiquc ele bebe pinga. E um dia ele veio falar comigo, cheiran- do tt pmga. Uma noite apareceu e perguntou-me: - Então, Dona Carolina, a senhora anda dizendo que eu bebo pinga? Recordei imediatamente da Leila, porque eu tinha dito só ptiru ria. Respondi: Eu acho o senhor bonito, mas tenho medo do senhor be- hrt pinga. ...Percebi que o soldado não apreciou minhas observações. - O senhor sabe que o soldado alemão não pode beber? O soldado olhou-me e disse: - Graças a Deus, sou brasileiro! 76 DE JUNHO ...O José Carlos está melhor. Dei-lhe uma lavagem de alho e uma chá de ortelã. Eu zombei do remedio da mulher, mas fui obrigada a dar-lhe porque atualmente a gente se arranja como pode. Devido ao custo de vida, temos que voltar ao primitivismo. Lavar nas tinas, cosinhar com íenha. ...Eu escrevia peças e apresentava aos diretores de circos. Eles respondia-me: - É pena você ser preta. Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rústico. Eu até acho o cabelo de negro mais iducado do que o cabelo de branco. Porque o cabelo de Pagina 50 preto onde põe, fica. E obediente. E o cabelo de branco, é só dar um movimento na cabeça ele já sai do lugar. É indisciplinado. Se é que existe reincarnações, eu quero voltar sempre preta. Um dia, um branco disse-me: - Se os pretos tivessem chegado ao mundo depois dos brancos, aí os brancos podiam protestar com razão. Mas, nem o branco nem o preto conhece a sua origem. O branco é que diz que é superior. Mas que superioridade apresenta o branco? Se o negro bebe pinga, o branco bebe. A enfermidade que atinge o preto, atinge o branco. Se o branco sente fome, o negro também. A natureza não seleciona ninguém. 17 DE JUNHO Passei a noite assim: eu despertava e escrevia. Depois eu adormecia novamente. As 5 da manhã a Vera começou vomitar. Eu dei-lhe um calmante, ela dormiu. Quando a chuva passou eu aproveitei para sair. Catei um saco de papel. (...) Eu recebi só 12 cruzeiros. Catei uns tomates e um pouco de alho e vim para casa correndo porque a Vera está doente. Cheguei ela estava dormindo. Com os meus ruidos ela despertou-se. Disse estar com fome. Fui comprar leite e fiz um mingau para ela. Ela tomou e vomitou um verme. Depois levantou-se e andou um pouco e deitou-se outra vez. Eu fui no Seu Manuel vender uns ferros para arranjar dinheiro. Estou nervosa com medo da Vera piorar, porque o dinheiro que eu tenho não dá para pagar medico. (...) Hoje eu estou rezando e pedindo a Deus para a Vera melhorar. 18 DE JUNHO Hoje amanheceu chovendo. A Vera, ontem pois dois vermes pela boca. Está com febre. Hoje não vai ter aulas, cm homenagem ao Principe do Japão (nota 18). 19 DE JUNHO ...A Vera ainda está doente. Ela disse-me que foi a lavagem de alho que eu dei-lhe que lhe fez mal. Mas aqui na favela varias crianças está atacadas com vermes. O José Carlos não quer ir na escola porque está fazendo frio c ele não tem sapato. Mas hoje é dia de exame, ele foi. Eu fiquei tom medo, porque o frio está congelando. Pagina 51 Mas o que hei de fazer? Eu saí e fui catar papel. Fui na Dona Julita, ela estava na feira. Passei na sapataria para pegar o papel. O saco estava pesado. Eu devia carregar o papel em duas viagem. Mas carreguei de Uma vez porque queria chegar em casa, porque a Vera estava doente e sosinha. 20 DE JUNHO ...Dei leite para a Vera. O que eu sei é que O leite está sendo despesas extras e está prejudicando a minha minguada bolsa. Deitei a Vera e saí. Eu estava tão nervosa! Acho que se eu estivesse num campo de batalha, não ia sobrar ninguém com vida Eu pensava nas roupas por lavar. Na Vera. E se a doença foste piorar? Eu não posso contar com o pai dela. Ele não conhece a Vera. E nem a Vera conhece ele. Tudo na minha vida é fantástico. Pai não conhece filho, fiIho não conhece pai. ...Não tinha papeis nas ruas. E eu queria comprar um par dc sapatos para a Vera. (...) Segui catando papel. Ganhei 41 cruzeiros Fiquei pensando na Vera, que ia bradar e chorar, porque ria quando não tem o que calçar fica lamentando que não gosta de ser pobre. Penso: se a miséria revolta até as crianças... (nota 18) Trata-se do príncipe Míkasa, irmão mais novo do então imperador Hhnhito, que visitou o país por ocasião dos 50 anos da imigração HuHfnnsa no Brasií. (N.E.) 21 DE JUNHO ...Vesti o José Carlos para ir na escola. Quando eu estava na rua, comecei ficar nervosa. Todos os dias é a mesma luta. Andar igual um judeu errante atraz de dinheiro, e o dinheiro que se ganha não dá pra nada. Passei no Frigorifico, ganhei uns ossos. Quando eu saí a Vera recomendou-me para trazer os sapatos. Deixei o João brincando com ela, porque hoje não tem aula para o segundo ano. Percorri varias ruas e não havia papel. Quando ganhei 30 cruzeiros, pensei: já dá para pagar os sapatos da Vera. Mas era sabado e precisava arranjar dinheiro para o domingo. E Vera já estava idealizando o cardapio de domingo. Na Avenida Tiradentes eu ganhei uma folhas de flandres e fui vender no deposito do Senhor Salvador Zanutti, na rua Voluntários da Patria. Eu estava de mal com ele. Mas ele não me fez mal nenhum. Pagina 52 Até emprestou-me dinheiro quando eu fiquei doente. Quando eu fiquei doente eu andava até querendo suicidar por falta de recursos. O senhor Salvador perguntou-me porque foi que eu sumi de lá. Eu fiquei envergonhada com a sua acolhida tão gentil (...) Ele deu-me 31 cruzeiros. Fiquei alegre. Saí correndo. Ia comprar os sapatos para a Vera. Lembrei que havia deixado a sacola no deposito. Mas o transito estava impedido. Consegui atravessar para pegar a sacola. Ele disse-me: - Você saiu correndo e esqueceu a sacola. Catei mais um pouco de papel e recebi 10 cruzeiros. Fiquei com 71 cruzeiros. Dei 30 para os sapatos, fiquei com 41. E não ia dar para comprar café, pão, açúcar e arroz e gordura. Pensei nos ossos. Eu ia fazer uma sopa. Tem um pouco de arroz, um pouco de macarrão. Eu misturo tudo e faço uma sopa. E a Vera se quizer comer come, se não quizer que se aperte. A epoca atual não é de ter preferencia e nem nojo. Cheguei em casa para ver a Vera. Ela estava brincando. Pensei: Ela já está melhor. Ela estava coçando-se e com a pele toda irritada. Acho que foi o chá de alho que lhe dei. Jurei nunca mais dar-lhe remedios indicados por lavadeiras de hospitais. Mostrei-lhe os sapatos, ela ficou alegre. Ela sorriu e disse-me: que está contente comigo e não vai comprar uma mãe branca. Que não sou mentirosa. Que falei que ia comprar os sapatos, e comprei. Que eu tenho palavra. Eu estava tão cançada. Eu queria sair para arranjar mais dinheiro. Mas a canceira dominou-me. Ouvi as crianças gritar que estão dando cartões. Corri como flexa. A canceira sumiu. Encontrei o João que já vinha com um cartão acenando na mão. Todos rsiavam sorrindo como se tivesse ganhado um prémio. Li o cartão. Era para ir buscar um prémio e uma surpresa para seu filho na rua Javaés 771. 22 DE JUNHO Deixei o leito as 5 horas, preparando as crianças para ir na festa na rua Javaés (...) Dei comida para a Vera. O João não quiz a minha comida. Disse: - Eu vou comer lá na festa. A comida de lã deve ser melhor do que a da senhora. Ele não gosta de festa. Mas se ele sabe que vai ter comida é o primeiro a insistir e faz questão de levar a sacola. (...) Passei na Dona Julita para dizer-lhe que nós iamos numa festa. Pensei: deve ser banquete porque São Luiz Rei de França quando convida- mt o povo para comer preparava um banquete. Tomei o bonde. O dinheiro Pagina 53 não dava. Cheguei lá as 2 horas. A fila estava enorme. Podia ter umas 3 mil pessoas. Quando eles vieram nos convidar os favelados ficaram contentes. Os que não ganhou cartão ficou fborando e dizendo que não tinha sorte. Percebi que povo da favela gosta de ganhar esmolas. Puzeram umas tabuas na calçada e forniram com jornaes e puzeram os pães em cima. Ouvi uma mulher dizer: - Não é ruim ser pobre. Todos usava roupas humildes. Alguns calçados outros descalços. Apareceu um preto alto e gordo como se fosse decendente de elefante. Falava para todos ouvir. - Eu não sou deputado. Sou simplesmente amigo do povo humilde. Comecei a escrever o que observava daquela agromeração. O senhor Zuza viu-me escrevendo. Porque eu sou alta e estava toda de vermelho. Fui falar-lhe. Perguntei-lhe: - Quem é o senhor? - Ô gente! Eu sou o Zuza! A senhora nunca ouviu falar no Zuza? Pois o Zuza sou eu! - Com que finalidade o senhor faz esta festa? Faço esta festa para o povo. Eu vou por o senhor no jornal. Você pode me por onde você quizer... Não simpatizei com o tal Zuza. Falta qualquer coisa naquele homem, para ele ser um homem completo. Ele notando a impaciência do povo, dizia: - Espera! Vocês estão mortos de fome? Vi mulher gravida desmaiar. O Zuza deu uns pães para as mulheres, e mandou elas erguer os pães para o ar, para ser fotografadas. Os carros e os onibus da CMTC (nota 19) encontrava dificuldades para percorrer a rua devido as crianças que atravessavam a rua de um lado para outro. A qualquer instante eu esperava um atropelamento. Alguns reclamava: - Se eu soubesse que era só pão, eu não vinha. O senhor Zuza mandou dois violeiros tocar e apareceu um palhaço. Que festa sem graça. Era domingo e o povo ficou expantado quando viu os indigentes superlotar o Pagina 54 onibus Bom Retiro. Tivemos sorte. Fomos com um cobrador que aceitava a quantia que nós davamos. Uns dava 1 cruzeiro, outros dava só um passe. Tinha uma mulher com crianças que vieram de Santos e ganhou só um pão e um saquinho de bala e uma regua escolar que estava escrito Lembrança do Deputado Paulo Teixeira de Camargo. Tinha mulher que gastou vinte cruzeiros nas conduções. E não ganharam nada. Onde estava a fila estava frio por estar na sombra. Eu saí da fila e passei para o outro lado. Devido eu ter bajulado inconcientemente o senhor Zuza, ele deu-me vários pães. Contei até seis. Depois parei e pedi a Deus para ele não dar-me mais pães. Ouvi varias mulheres lhe rogando praga. Tivemos sorte ao voltar. Era o mesmo condutor. Eu estava com cinco crianças, e eu, seis. Porisso eu fui obrigada a suplicar ao condutor que deixasse nós voltar por três cruzeiros. Era o unico dinheiro que eu tinha. A Vera ficou com os pés inchados de tanto andar. Quando eu cheguei na favela vi as mulheres rogando praga no Zuza. As mulheres que estavam com crianças não ganharam pão, porque não ia entrar no meio do povo que dizia: - Vamos pegar alguns pães para não perder a viagem. Encontrei o senhor Alexandre brigando com o Vicente por causa de um metro que emprestou-lhe. (nota 19) Companhia Municipal de Transportes Coletivos. (N.E.) Era 6 horas quando apareceu um carro. Era um senhor que havia casado e veio nos dar os sanduíches que sobrou. Eu ganhei alguns. Depois os favelados invadiram o carro. Os moços foram embora e disse que iam jogar os sanduíches no lixo que gente de favela são estúpidos e quadrúpedes que estão precisando de ferraduras. 23 DE JUNHO ...Passei no açougue para comprar meio quilo de carne para bife. Os preços era 24 e 28. Fiquei nervosa com a diferença dos preços. O açougueiro explicou-me que o filé é inais caro. Pensei na desventura da vaca, a escrava do homem. Que passa a existência no mato, se alimenta com vegetais, gosta de sal mas o homem não dá porque custa caro. Depois de morta é dividida. Tabelada e selecionada. E morre quando o homem quer. Em vida dã dinheiro ao homem. E morta enriquece o homem. Enfim, o mundo é como o branco quer. Eu não sou branca, não tenho nada com estas desorganizações. Pagina 55 Quando cheguei na favela os meninos estavam brincando. Perguntei-lhes se alguém havia brigado com eles. Responderam- me que só a baiana. Uma vizinha que tem 3 filhos. E que a Lei- la brigou com o Arnaldo e queria jogar a sua filha recem-nascida dentro do rio Tietê. E foram brigando até a rua do Porto. E a Lei- la jogou a criança no chão. A criança tem dois meses. (...) As mulheres queriam ir chamar a policia para levar a menina no Juizado. Eu estava cançada, deitei. Não tive coragem nem de trocar roupa. 24 DE JUNHO Quando eu cheguei na favela encontrei com a Vera que estava na rua. Ela já sabe contar tudo que presencia. Disse-me que a policia tinha vindo avisar que a mãe do Paredão tinha morrido. Ela era muito boa. Só que bebia muito. Eu estava fazendo o almoço quando a Vera veio dizer-me que havia briga na favela. Fui ver. Era a Maria Mathias que estava dando seu espetáculo histérico. Espetáculo da idade critica. Só as mulheres e os médicos é quem vai entender o que eu disse. Os favelados todos os anos fazem fogueiras. Mas em vez de arranjar lenha rouba uns aos outros. Entram nos quintaes e carregam as madeiras de outros favelados. (...) Eu tinha um caibro, eles levaram para queimar. Não sei porque é que os favelados são tão nocivos. Alem deles não ter qualidades ainda surgem os maus elementos que mesclam-se com eles. Quem vem perturbar é o Chico, o Bom-Bril e o Valdemar. O Valdemar levanta de manhã e vem para a favela. Porque este homem não vai trabalhar? Ele não gosta de mim. (...) Eu gostava imensamente da mãe dele. Mas a Dona Aparecida disse-me que foi nós os favelados quem deturpamos o seu filho. Mas os homens da favela alguns vão trabalhar. Os outros quando não trabalham ficam na favela. Ninguém chama o Valdemar aqui. E que ele já nasceu com o espirito inferior. (...) Se a gente pudesse escrever sempre elogiando 1 Se eu escrever que o Valdemar é bom elemento quando alguém lhe conhecer não vai comprovar o que eu escrevi. Eu sentei ao redor da fogueira. O Joaquim e sua esposa Pitita brigaram. Pobre Joaquim. Demonstrou tolerância para não desfazer o lar. Pagina 56 25 DE JUNHO Fiz o café e vesti eles para ir na escola. Puis feijão no fogo. Vesti a Vera e saimos. O João estava brincando. Quando me viu correu. E o José Carlos assustou-se quando ouviu a minha voz. Vi uma pirua do Governo do Estado. Serviço de Saúde que vinha recolher as fezes. O jornal disse que há 160 casos positivos aqui na favela. Será que eles vão dar remedios? A maioria dos favelados não há de poder comprar. Eu não fiz o exame. Fui catar papel. (...) Ganhei só 25 cruzeiros. E que agora tem um homem que cata na minha zona. Mas eu não brigo porisso. Porque daqui uns dias ele desiste. O homem já está dizendo que o que ele ganha não dá nem para a pinga. Que é melhor pedir esmola. Passei na fábrica ( ) e catei uns tomates. O gerente quando vê repreende. Mas quem é pobre deve fingir que não ouve. Quando cheguei na favela fiz uma salada para os meninos. Ouvi as crianças dizendo que estavam brigando. Fui ver. Era a Nair e a Meiry. A Nair é branca. A Meiry é preta. Já faz tempo que a Meiry anda prometendo que vai bater na Nair. A Meiry é temida porque anda com gilete. E ela foi bater na Nair e apanhou. A Nair rasgou-lhe as roupas, deixando-lhe nua. Que gargalhada sonora! Que espetáculo apreciad